Este não é um conto, é apenas um registro.

Mais uma vez passei minha tarde na padaria do Seu Zé!

Não é um evento, passeio exuberante e nada disto. Não mesmo!

E lá estava o bom velhinho, com seu jargão de sempre: – Que maaaais?

Se passar por esta padaria desatento, pode-se confundir com um botecão velho, é verdade.

Sem os refinamentos, as mesas lindas, cadeiras confortáveis e os balcões elegantes daquelas padarias que provavelmente você deve frequentar, esta é uma panificadora que, toda vez que entro, sou arremessado para a década de 80.

É como se eu estivesse revivendo tempos passados e a qualquer momento posso me ver entrando ali, com meus 10 ou 12 anos de idade. 🙂

Tudo naquela padaria é antigo: decoração de madeira escura, espelhos com detalhes de arabescos em jato de areia, atendentes antigos que devem ter uns 60 anos, uniforme bege e mal tratado, logotipo em brasão bordado com linha vermelha e levemente desfiado, papel de pão pardo, escrito: Agradecemos a Preferência e Volte Sempre! Nas placas, vemos  escrito o cardápio do dia com pincéis em duas cores, exibem pizzas a preços reais e convidativos. Ainda existe um doce de época: Wanderléa. Ok! Você nem imagina que doce é esse e nem que ele carrega consigo o mesmo nome da cantora loira da Jovem Guarda, “mora”? Os lanches são uma delícia, de verdade. Feitos na velha chapa de sempre e que seguem um exigente menu de uma época distante e esquecida.

No meu bairro, existem umas quatro ou cinco padarias “Monstro?, daquelas modernas, gigantescas, lindas e exuberantes, com seus doces maravilhosos e brilhantes. Como diriam “os véio” daqui: – Coisa fina mesmo, viu belo?!

Padarias elegantes, refinadas e impressionantemente caras. Ganharam em tamanho, visual e esqueceram que somos um país em crise e do submundo. Porém, nenhuma têm o que na do Seu Zé  existe de sobra: Humanidade! E isto, para mim, é insubstituível!

Monstros gigantes sem coração em que os donos perderam a humanidade que o Seu Zé carrega no coração.

Uma preocupação e um carinho especial que sempre tem consigo e distribui aos montes.

Você percebe isto no atendimento amigo, palavras de carinho e preocupadas com o bem-estar de todos.

Eu reparo nas coisas, sei quando algo é só por ser. E ele é bom, sabe ser gentil e honesto.

Este jeito especial reflete em seus pães, que tem textura, sabor de verdade, pesam bem na balança e nunca no bolso.

Sua trouxinha de chocolate, generosamente recheada, é uma maravilha a parte.

As pessoas, influenciadas pelo Seu Zé, conversam alto umas com as outras e te tratam como parte da vizinhança e não como um estranho. Até os mais desconfiados sorriem amistosamente, mesmo sem dar muita liberdade.

O ambiente é favorável ao público masculino, a não ser que não se incomode com estes “pequenos” detalhes relatados acima.

O almoço é simples e talvez não encante de cara, mas o prato cheio, quente, bem temperado e de preço justo, é feito de forma caseira e com carinho. Sei do que estou falando, também conheço o velho cozinheiro de sempre e sua valorosa dedicação diária.

Sabe, não adianta querer me arrastar para o seu mundo chique, cheio de doces finos e de alta qualidade, nenhum deles superam o que há de mais importante para mim, aquilo que tenho encontrado há anos com a turma do Seu Zé e que parece ter sumido de outros estabelecimentos: Humanidade! Sempre!

O Seu Zé, com seus 73 anos, é homem digno, carismático, bom coração e um excelente vendedor.

Quando ele se for, quem o substituirá? Bom, ele sempre promete trabalhar “só” até os 100 anos. rsrsrs

Obrigado Seu Zé! Amanhã eu tô aí de novo!

– Que maaaaaaais?! rsrsrs

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