Toda área tem seus desafios, desafetos e atritos. Normal? Sim, com certeza!

Porém, como seria um desacordo entre ilustradores e um duelo, no caso da coisa ficar feia?

Fui em um possível cliente apresentar meu portfólio, tempos atrás. Na época em que fazíamos isto ao vivo e com enormes pastas contendo materiais impressos. Faz tempo, hein?! Kkk

Passei por um rapaz que também tinha consigo uma destas pastas enormes embaixo do braço. Logo imaginei: lá vai meu concorrente, um provável ilustrador.

Ilustradores nunca foram muito amistosos, receptivos e para não variar, ele passou por mim com cara de poucos amigos. Sabe como é, a área é muito concorrida e os trabalhos escassos, não dá pra ficar com muito papinho e tempo para se fazer amiguinhos. Bom, era assim naquela época. Hoje ninguém nem se vê mais! :p

Aí, imaginei um duelo de ilustradores, então, ficou assim:

– Prazer! Sou o ilustrador que conversou ontem de manhã com o senhor, pelo telefone.

Disse isso ao senhor careca e de pele esbranquiçada de escritório, com seu olhar engrandecido pelos óculos de miopia e a expressão de quem compreendia a minha presença ali, naquela sala restrita e com cara de séculos passados.

Falava com ele, enquanto algo estranho acontecia nos fundos daquele lugar gigantesco. Um grupo de pessoas, que sentavam bem lá no fundo, me olhavam de forma diferente.

Sou homem ressabiado por natureza, confiança não é o meu forte, por isso, liguei a minha mania de perseguição e a deixei em alerta. Entendi que não era bem-vindo!

Não demorei muito para entender o que acontecia por ali e de quem se tratavam, eram os ilustradores mais antigos da editora. Por estarem com excesso de trabalhos, o Diretor de Arte resolveu, a contragosto daquela equipe de inconformadas figuras, chamar alguns “Freelas”, no caso… eu!

As pessoas não admitem, mas são como os animais, porque marcam território e detestam os possíveis “invasores”, por isso, odeiam a aproximação e intimidade de estranhos!

Se fôssemos bichos, talvez viessem me cheirar e rosnar para mim!

O mais gordo do grupo de cinco ilustradores, talvez começasse a mijar pela sala inteira, como quem diz: – Aí! Você não é bem-vindo e esta merda toda é minha!!!rsrsrs

Ilustrador é igual a nadador, somos sozinhos!

É raro desenharmos em grupo, fora grafites gigantescos, que podemos, neste caso, chamar de revezamento, em comparação ao nadador! Mas isto é outro caso, outro grupo, outra estirpe de desenhistas.

Geralmente, ou na grande maioria, somos assim, sempre sozinhos e cada um por si.

Por isso, no caso de um livro novo, não há o prazer de dividir, de agregar, de se dizer: Estamos juntos aí, hein! Ou é meu, ou é dele!!! E isso, faz de mim um rival, um oponente e uma pedra no caminho! rsrs

Fui apresentado para a equipe, que me receberam com a frieza esperada.

Na sequência, fui solicitado a adentrar em uma sala pequena, ali por perto, com as portas de vidros transparentes, na intenção de que o senhorzinho simpático, pudesse analisar meu portfólio.

Ele falava comigo, enquanto passava calmamente folha por folha da pastinha que continha meus trabalhos.

Eu já conhecia cada uma daquelas ilustrações e, sinceramente, mesmo sendo eu o guardião de minhas obras e sem querer desrespeitá-lo, tudo o que eu mais queria naquele momento, era pegar algum trabalho e ir embora rapidamente para meu estúdio, porque as coisas estavam meio agitadas demais com aquele grupo do lado de fora, que eu ainda podia ver através daquelas portas de vidro que nos cercava.

Mesmo com toda a simpatia da figura agradável do respeitável senhor que me entrevistava, podia, ao mesmo tempo, perceber as más intenções de meus “oponentes”, que desenhavam homenzinhos na forca e cabeças em bandejas em folhas de rascunho e depois mostravam para mim.

Sim! Fiquei ofendido e me senti desafiado pelos esquisitões.

O senhor, em determinado momento, que se mostrava interessado em meus trabalhos, se levantou de sua velha cadeira e foi até uma outra mesa do lado de fora daquela salinha, com seus passos lentos, para pegar um cartão de visita, ou algo do gênero, o que me deu tempo suficiente para sacar uma folha e um lápis, e desenhar rapidamente um revólver, onde apontei para o grupo do lado de fora, que me continuava me mostrando seus desenhos ameaçadores. Então, fiz sinal que aguardassem e rapidamente estiquei uma bandeirinha do cano de meu revólver e escrevi: Bang!

A guerra estava declarada e estávamos definitivamente em uma batalha.

Eles, não acreditando em minha audácia, começaram um desafiador jogo de personagens que, atacavam, gritavam, guerreavam. Eu, cuidadosamente e em menor número, me defendia como podia.

Paramos nossa brava luta, quando o senhor retornou com seu cartão em punho e a promessa de trabalhos futuros.

Me despedi gentilmente do respeitável senhor e educadamente, sem deixar transparecer o clima tenso entre os “guerreiros do grafite”, saldei os valorosos oponentes que, igualmente educados, me cumprimentaram sem mágoas.

Enfim, não sei se ganhei ou perdi aquela batalha alucinada e silenciosa, só sei que fui solicitado dias depois para ilustrar um livro.

Coincidentemente, o livro era sobre guerra! J

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