Estava em paz. Paz que não se estranha ninguém.

Não carregava quase nada, então não tinha muito o que perder. Porém, gelei quando aquela figura se aproximou.

Homem com o rosto muito escurecido e castigado pelo sol. Rústico, sofrido, de roupas opacas e surradas. Homem sofrido com certeza.

Numa mão uma garrafa, na outra um cigarro que liberava uma quantidade impressionante de fumaça. Eu quase não o via por detrás daquele fumacê. Talvez de palha ou talvez não.

Era uma figura que dava medo por sua truculência, daqueles medos de criança inocente. Dos tempos do bicho-papão, do homem do saco e dos seres invisíveis.

Se não fosse quem sou, se não tivesse a firmeza e a vivência que tenho, sério que fugiria assustado. Engraçado como esses medos somem da gente com o decorrer do tempo! rsrs

Chegou atrapalhado, espalhando fumaça e má impressão, mas num silêncio e numa humildade de dar dó.

Tive a sensação e a estranheza que, por um instante, se tratar de coisa de outro mundo,  uma visão.

Para não me comprometer, do jeito que estava, continuei.

– Bás tarde moço! Disse com sua voz grossa e catarrenta.

Balancei a cabeça, concordando sem deixar transparecer a alma boa que carrego. Preferi ser distante, com a “melhor” cara má que podia, que nem de longe assustaria aquele caboclo acostumado com a sua própria. Esta bem mais intensa e severa.

Olhar avermelhado e remelento e dentes estragados que em nada condiziam com a força de sua voz de trovão.

Retirou seu chapéu sofrido de vaqueiro, limpou o suor que lhe escorria pela testa e puxou assunto sem prumo:

– Tá fazendo o que por estas terras, mizinfi?

Ai cacete! Pensei arrependido. Só queria ter saído para uma voltinha ingênua e com a fútil e despretensiosa intenção de tomar um solzinho no meio daquele fim de mundo. Desejava curtir o meu silêncio na presença distante de pessoas igualmente caladas e continuar sendo o bom observador invisível de todas as tardes. Todavia, agora iria ser impossível! Fui descoberto do meu esconderijo secreto a céu aberto! Arrancado de dentro de mim!

Olhei com meu olhar de poucos amigos, daqueles de paulista que não gosta de intimidade e respondi desanimado:

– Ainda nada, só admirando o mar.

– Tá, é certo! Respondeu dando um trago na sua garrafa, com um dos olhos fechados e o outro sempre ligado em mim.

– Cê tá de passeio? Continuou sua entrevista não autorizada.

Com a mente fervilhando, pensava inconformado do porquê daquele  dali querer saber tanto? Porque comigo, Senhor? Pensei agonizante sobre a atitude intrometida do estranho.

– Tô! Respondi sem muita certeza se deveria.

– Cê é de Sumpaulo?

Se ele soubesse como é difícil para mim responder tanta coisa, ainda mais para uma pessoa que vem de uma cidade desconfiada e judiada como a minha!!! Em São Paulo, aprendemos que informação demais é ruim. Como deve ser bom ser de cidade pequena, pois as conversas, muitas vezes, são apenas conversas.

Olhei na cintura do indesejável entrevistador e vi que ele carregava um facão. Opa!!! Pensei. E mais uma vez, meus sentidos já tão acostumados a serem desconfiados, apitaram, ou melhor, berraram: CUIDADO!!!

Ei! Não me julgue, afinal, no meu lugar você poderia ter a mesma reação! Tenho certeza.

Meus sentidos de paulistano sofrido da ZL me colocavam alerta. É uma somatória fácil de se fazer , lá na minha terra: Homem feio + roupa surrada + bebida + fumaça suspeita + facão na cintura = “Perdeu Playboy”!!! Mas, podia ser também: Filmes brasileiros com violência exagerada + Cabeça traumatizada de bairro violento e que vive em uma cidade desconfiada + Frazesinha cretina de filmes brasileiros = Um idiota completo e preconceituoso. Eu julguei precipitadamente as intenções de um estranho de aparência simples, é verdade!

Não! Ele não queria nada de mim, apenas uma prosa rápida enquanto bebia sua água. O cigarro? Pois é, só uma palhinha depois de um dia inteiro de trabalho pesado. Disse se sentir aliviado com aquele fumo. Relaxado e livre de suas muitas dores no corpo.

O facão fazia parte de seu instrumento de trabalho, assim como o Notebook de qualquer trabalhador da minha cidade.

É! Batemos um bom papo aquele dia, o que me deixou bastante feliz, já que ele era uma pessoa simples e tranquila. Inteligência de longa data e profunda.

Sim!!! Preconceito é uma grande merda!!

A diferença assusta e o sofrimento nos afasta.

Licença, perdão e sigamos em paz!

*Texto reeditado

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