As vezes me pergunto em qual ponto de vista estou diante dos milhões que seguem por aí.

Pra simplificar, dois bastariam. O do bem e o do mal!

Dois pontos de vista em cima da mesma pessoa? Como seria isto?

É bem verdade que se pegássemos uma única pessoa e a colocássemos sob varios olhares, com outras muitas pessoas a observando e analisando, imagina quantas histórias não dariam? Tantos pontos de vista diferentes? Creio que seria até engraçado perceber que ninguém vê a mesma pessoa, ou acontecimento, da mesma maneira.

Hoje mesmo me peguei falando de um vizinho que vende frutas aqui perto de casa, uma espécie de quitanda improvisada. Ri por imaginar a possibilidade de alguém, em alguma casa, que poderia ter me visto na rua caminhando e, por algum motivo qualquer, também pudesse estar falando de mim naquele momento.

Pois é! Como diz minha filha: – Pense menos, pai!kkk

Com esta ideia na cabeça, de que existem pessoas que nos observam, reparam e até têm opiniões formadas sobre quem somos, agimos e pensamos, sem de fato saber o que vai em nossa mente, escrevi esta história “maluca” que retrata dois pontos de vista da mesma mulher. Então, tá lá, um conto com dois pontos de vista:

É hoje… ou não!

Vi quando ela passou por mim, quase indiferente, se não fosse pela olhada discreta e um aceno rápido, imediatamente correspondido por mim. De estranho para estranho, porém, nada demais. Assim, respeitoso e distante como tem de ser, afinal nunca fomos apresentados formalmente.

Já a vi passar por esta esquina muitas vezes, desde muito tempo atrás, mas nunca tive uma atitude de me aproximar. Na minha mente há um caso entre nós e é assim, na base dos olhares! Apenas isto, distância respeitosa.

Poderia ser diferente se eu fosse menos envergonhado e humilde, ou melhor, complexado. Sei que meu ganho por mês é ridículo. Mulher estiola assim, com certeza deve receber muito mais do que eu, com seu trabalho!

O que sei da vida dela é tudo o que vejo desta esquina. Não sei o que ela faz da vida fora daqui, mas o pouco que vejo dela e o que aparenta, não é pouca coisa.

Ela é caprichosa, sempre muito bem arrumada, de unha feita e cabelo escovado!

Linda, cheirosa e pronta pra tudo! Sua atitude, corpo forte, bem torneado, de passos firmes, demonstram isto.

Quanto a mim? Cumpro com o meu papel de ser humano nesta cidade maluca, ando por aí pagando contas, comendo em botecos, padarias e sem grandes novidades.

Sim! Sempre aqui, todos os dias nesta esquina, na mesma hora, no mesmo lugar. Esperando que ela passe. E quando ela passa por mim, lá está aquele olhar!  A melhor hora do dia… ver aquele olhar.

Ah! Mulher de olhar sedutor que não me sai da cabeça! Nunca!

Já tive uma oportunidade de me apresentar e dizer que eu sabia dela, mas vacilei.

Uma noite destas em uma balada. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez, nos reconhecemos e o sorriso se fez. Porém, ali também estavam os amigos, uma noite perfeita, a felicidade do encontro de velhos companheiros, o exagero na comemoração e a bebida que rolou solta. Solta demais, ao ponto de me fazer esquecer do tempo e perder limites. Tanto que me fez apagar de vez a lembrança de qual maneira consegui chegar em minha casa! Assim, a oportunidade de nos conhecer, naquela balada mais do que oportuna, não aconteceu. E de novo fomos apenas olhares compartilhados e nada mais.

No outro dia, dor de cabeça, ressaca e arrependimento. Lição aprendida? Espero que sim!

Jurei para mim mesmo que iria ser mais ousado, me aproximar, acompanhá-la e me apresentar de vez.

Pois é! Fiz o juramento e, logo depois, no dia seguinte em que me comprometera em tomar uma atitude, não a vi passar.

Não vi nem aquele olhar e muito menos seu sorriso interessado.

Não a ver passar me fez falta e deixou meu dia mais triste.

Seu olhar me dá forças e me deixa mais disposto!

Um olhar rápido que me inspira. Aquele sorriso sem palavras, apenas um querer bem mútuo.

Segundos eternos, pois parecem parar o tempo.

Rápidos, mas tudo o que tenho dela é precioso naqueles poucos minutos. Sim! Porque recebo sua atenção, seu sorriso com as mãos nos cabelos… seu perfume!!!

Um aroma leve, que me envolve. Sou dela para sempre, naquele instante!

Ela não veio e o dia ficou cinza.

Eu não trabalhei direito, não fiquei feliz e nem prestei!

Amanhã ela vai passar, vou dizer o que sinto e o que ensaiei.

Enfim, tudo aquilo que tenho treinado há meses desde do primeiro olhar!

Talvez eu diga uma frase completa, clara, objetiva e cheia de intenções!

Quem sabe eu consiga não ser eu mesmo e encene um outro cara, um mais corajoso e mais ousado!

Talvez eu traga flores e seja o romântico que nunca fui, goste de músicas melosas como nunca gostei e seja bem humorado, mais elegante. Exatamente como imagino que ela goste!

Amanhã, talvez amanhã!

Profissionais em ação.

Ora.. que porra! Aquele dia estava quente demais, apenas isso! O calor mexe com a cabeça da gente e esquenta os humores, os miolos e irrita nas pequenas atitudes, nos gestos e insinuações.

Não sabe, não fale! Cale-se! Sem julgamentos.

Naquele dia, os temores se tornavam reais, lá estava mais uma cobrança e a constatação horrorosa, juntou um aluguel no outro e a vida cobrava sem dó. Pressionado, ameaçado e intimado! A dona da casa era impiedosa, uma velhinha cruel com cara de impaciência e devota fiel de seu próprio umbigo! Ele estava lascado.

O calor era de enlouquecer qualquer um, sem ar condicionado, nem som decente no carro e sem dinheiro para gasolina!

O que dizer daquele trânsito? Já era ruim para uma pessoa comum, o que dizer para ele?

Não se orgulhava de seu trabalho, mas também não reclamava, nunca, não era a dele. Tinha consciência de que deveria ser controlado, frio, silencioso, discreto e, acima de tudo, sigiloso!

Sua figura não inspirava confiança e nem medo, pois suas roupas mal combinadas e de segunda classe não costumavam impressionar a ninguém.

Passou a noite na boate, concentrado, se inspirando e, mais uma vez, iria fazer o que deveria ser feito.

Seu nome era conhecido e muito procurado, mas ninguém sabia que se tratava dele, já que sua imagem não correspondia com o profissional do gabarito dele. Um sujeitinho comum e a margem de qualquer roda de bandidos e criminosos. Uma figura frágil, desprezível e de um grupo social indefinido.

Logo ali, uma ameaça perigosa e em corpo presente, mas completamente desapercebido e desacreditado. Quem liga? O melhor dos disfarces.

Nem mesmo sua família saberia direito como definí-lo. Mesmo que sem grandes alardes, diziam ser um mistério, um Zé Ninguém!

Seu trabalho era do tipo que não se procura nos jornais, só acontecia se fosse indicado e, diga-se de passagem, muito bem indicado.

Já fazia um tempo que ele não trabalhava. Recebera duas propostas antes desta, mas faltou confiança nos “clientes”. Muitas conversas, até que num belo dia chega até ele duas jovens senhoras endinheiradas, mulheres de “Barão”, como ele chamava os muito ricos, ou melhor dizendo, dois ex-barões. Outro profissional aceitou a encomenda. Gente ruim, da pior espécie, não temia pegar qualquer trabalho, por preços baixos e mal planejados. Porém, amador demais. Deixou pistas, provas e agora está lá, todo mundo na cadeia. O profissional ficou satisfeito, mais uma vez sua opinião estava certa. Ele dizia que era um pressentimento, definia uma coceira na testa e no nariz como um sinal, coisa de gente habilidosa, um profissional!

Começou cedo na área, nunca foi por gosto, já que era temente a Deus, mas a necessidade falava mais alto. A tal da sobrevivência!

A boate fechou quando o sol estava nascendo. Ele estava tranquilo e, assim como já esperava, bem na hora que tinha de ser, sem pressa.

A encomenda? Uma mulher muito linda, uma dama da noite, dessas que faz um homem balançar, se envolver e falar demais!

Ela dançou a noite toda e ele até torceu para que ela se divertisse ao máximo, que fosse muito feliz, extrapolasse, pois era a última noite dela. A última aventura!

Imaginava que se Deus o colocou no caminho dela, um profissional de renome, só podia indicar que ela estava predestinada. Ele havia sido bem pago para isso e, naquele momento, nada podia salvá-la!

Ela se despediu sorrindo e brincando com todos, exatamente como sempre fazia. O que ninguém imaginava era que seria pela última vez!

Uma vez encomendada, o destino dela estava nas mãos dele. O grande detalhe era que ele se orgulhava e vangloriava de nunca ter falhado… e não falhou!

Ele também nunca havia sentido dó de suas encomendas, se bem que daquela vez ele tremeu, coisa que também ficou em segredo. Ela se assemelhava e tinha a idade de sua filha mais velha. Uma que estava na faculdade!

Lembrou do aluguel mais uma vez, estava realmente atrasado. A prestação do mês anterior encostou na do mês vigente. Homem orgulhoso, gostava das contas em dia. Esta crise pegou todo mundo e não foi diferente com ele. Se pudesse não teria dívidas e compromissos, apenas caminhar sossegado de mãozinhas dadas com sua mulher em um final de tarde. Utopia, bobagem e ele sabia disso.

Sem uma aposentadoria decente, IPTU, IPVA, Taxas e Prestações atrasadas, a escola dos filhos mais novos e a faculdade da mais velha. Como aquilo tudo era caro!

Ele a seguiu o dia inteiro discretamente, sabia tudo dela, sacou até um admirador secreto, perto de uma destas esquinas da vida! Lamentou pelo o que poderia ter sido, mas imediatamente imaginou que estava fazendo um bem, afinal, ela também era uma profissional e o coitado não tinha chance. O pobretão não a veria nem no dia seguinte e nem nunca mais. Chegou a imaginar estar fazendo um favor para o pobre infeliz.

Tal qual o combinado e planejado, o trabalho foi feito como o encomendado, pareceu um assalto. Levou a bolsa da moça e entre dinheiro e bagunças de mulher, também havia um celular com a foto dela. O profissional balançou de novo. Velhice? Talvez! Ele sentiu dó pela primeira vez em sua carreira, uma pequena comoção e quase quis virar o rosto!

Ok! Feito!

Acabaram seus problemas imediatos, o ano estava garantido, seu cliente era um dos bons! Era uma relação de confiança que estava mais uma vez selada.

Ele não levou os sentimentos profissionais para sua vida pessoal. Nunca! Estava tudo bem!

Negava se arrepender, era um profissional e cada qual com sua responsabilidade!

Era um homem respeitador e nunca julgava ninguém, mas também não aceitava julgamento alheio.

Ela jaz profissional, fez o que tinha que fazer. Por isso, logo depois do expediente dela, ele executou com perfeição o dele.

Ao chegar em sua casa, ainda de madrugada e ao deitar em sua cama, apenas fez suas orações rotineiras para na seqüência dormir de cabeça vazia.

Feliz e acima de tudo, com as contas pagas!

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