Sou paulista, desses que anda de cara sisuda e com a pressa no caminhar.

Vontade de chegar, em qualquer lugar, todos os dias e por todos os motivos. Pois é!

E quando falo isso, não me veja homem zangado e de coração endurecido, isso não!

Sei que sou figura um pouco engessada, é verdade! Já te disse muitas vezes os meus motivos e acho que você os entendeu faz tempo. Creio!

Sou paulista, meu! Entenda lá meus defeitos e cultura, não é fácil ser diferente. Não mesmo!

Terra sempre apressada, corrida, afobada e carrancuda… é verdade.

Porém, aqui dentro deste homem, cheio de vícios adquiridos pelo tempo vivido por aqui, nesta cidade doida, tem um cara legal! Um ou outro já me disse isto!

Ei! Peralá doidão, tem pessoa querida e atenciosa aqui também, sim! Pode parecer falta de humildade, mas eu sou um destes aí, que não é de todo mal. Não e não mesmo. Me acho, de verdade, um homem “dus bão”, pode crer! E mereço sua atenção e respeito.

Foi assim que, com minha porção razoável de “gentefinisse”, que carrego em meu coração e sempre batendo nesta tecla do bem, que fui pego de surpresa por um velhinho sorridente, num destes bares da vida, onde me encontrava à toa.

O velhinho enrugado como a terra de onde veio, me dirigiu palavra arrastada, que a princípio levei um tempinho pra entender.

Seu sotaque cantado, educado, cheio de palavras muito bem elaboradas, exalando sabedoria, mas de forma simples e aparentemente inocente, de uma “vibe” boa como poucos, de imediato me hipnotizou.

Admirei sua educação e me tornei fã instantâneo e declarado de todos os predicados que o velhinho e sua aparência simples exalava. Apesar da humildade sem fim, pude perceber que ele carregava sabedoria dentro de si, bem ali… escondidinho em seu peito e revelado em seus olhos risonhos.

Fui pego, é verdade! Palavras, gestos, simplicidade e conhecimento. Coisa que tem faltado por estas terras.

Deus existe?! Se existe e você for um cara observador, vai perceber que este tipo de poder, esta vaga especial, o cargo dos cargos, só tem lugar aos que exalam aquele tipo de simplicidade. O resto é prepotência e arrogância.

Aqui, da minha terra da garoa, famosa por ser fria como o cacete, onde todos somos sozinhos que dói, só um senhor daquela categoria, um nordestino de chinelo de couro, roupas claras, óculos arranhados, chapéu simplório, ser respeitoso e respeitável, com seu sotaque arrastado e sorriso sincero, pra me acertar em cheio, lá naquele bar pouco amigável.

Minha atenção foi dele pelo tempo que precisou.

Não queria grandes coisas, apenas um pouco de atenção, prosa, algumas poesias de improviso, informações sobre meu mundo e depois…seguiu em frente.

Do mesmo jeito que veio, se foi.

Sr Poeta, que não me revelou seu nome, nem de onde exatamente era a sua terra, mas que ganhou de imediato o meu respeito.

Talvez tenha me feito lembrar de outras pessoas queridas, de algum lugar onde fui bem recebido. Sei lá!

Sotaque danado este aí. Esbanja cultura e sentimento.

Homem bom aquele lá! Sabe chegar e sabe sair!

 

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