Aconselho ouvir a trilha sonora para entrar no clima:

 

 

– Olá! Como vai você?!

Não sabia ao certo quem eu era e nem o que estava fazendo por ali.

Conforme minha visão foi se acostumando com a claridade do lugar, aos poucos, percebia a  casa em que estava. Simples, mas muito confortável.

Ela, uma senhora amável e de roupas que indicavam levar a vida sem grandes luxos e vaidades.

Seu rosto velho, enrugado, era típico das vovós queridas do interior.

Uma vida destinada aos cuidados do lar, ou melhor, ao encantamento do lar.

Por mais que tentasse, não me lembrava dela e, o pior, nem de mim mesmo, apenas tinha certeza de que não era dali.

Lembrava vagamente de que era de um outro lugar, uma cidade urbana, cheia de problemas, dívidas, impostos, tarefas, trabalhos e obrigações? Porém, não tinha certeza.

Deitado em um confortável sofá cheio de retalhos coloridos, em um canto qualquer da casinha, sem saber se chegara por mim mesmo ou se fora carregado até ali.

Teria bebido demais? Sido sequestrado?! O que acontecera?

Não! O clima era bom, amistoso, leve e agradável. Nada de ruim havia me arrastado até ali.

Um lapso de memória que me trouxera até aquele ambiente suave.

Sentei, esfreguei os olhos e tentei, de alguma maneira, reconhecer aquele cantinho confortável, mas que se mostrara completamente desconhecido por mim.

Do lado oposto ao meu, uma cozinha limpa, humilde e esfumaçada por algo que fervia no fogão. Talvez um chá ou, com um pouco de sorte, café.

A fumaceira escapava de uma chaleirinha de ferro e da lenha, logo abaixo, deixando o ambiente ainda mais brilhante com a radiância característica dos reflexos que a luz do sol proporcionava.

Foi então que percebi a presença de alguém próximo à porta. Tão clara quanto a luz do dia, em um resplendor sem igual.

Pequena, loira, iluminada pelo sol e tímida. Uma figurinha reluzente, graças aos brilhos do sol, de um dia ameno, que batiam sobre ela.

Me observava de cima de sua bicicletinha rosa, com as mãozinhas nos olhos que tapavam a claridade para me enxergar.

Não se aproximou, mas também não se escondera. Parecia curiosa, surpresa e muito atenta ao que eu fazia.

Suavidade, esta era a palavra para descrever aquele momento.

Uma simplicidade pura e verdadeira, de quem aceita as diferenças e transmite paz, uma tranquilidade desconhecida por mim.

Eu não era mesmo dali, sabia daquilo. Algo me dizia que há muito tempo não sentia aquela simplicidade cheia de Luz. Talvez, quem sabe, em uma infância distante, quando era muito pequeno, igualmente loirinho ao sol, branquelinho e cheio de simplicidade, sob os olhares atentos e queridos de uma mãe gentil e afetuosa. Pois é, quem sabe?

Leveza que não se explica, que não se cria… acontece, apenas isso.

Havia uma saudade de um alguém especial que não era dali, uma saudade que não se pode explicar, mas ao mesmo tempo um Amor sem fim.

O Pontinho de Luz, que me observava em silêncio, naquela porta pesada de madeira maciça, não veio me dizer nada e nem sequer saiu dali de seu cantinho brilhante do lindo sol da manhã, como se um dependesse do outro.

Sua existência, ao lado daquela mulher tão querida, não precisava de grandes atitudes para ser tudo o que precisava ver, uma alma de grande Luz e alegria.

Senti que a escuridão que vivenciara em algum lugar antes dali, havia se consumido, acabado completamente. De alguma forma estava livre.

De repente: – Fica bem! Disse o Pinguinho de Luz.

Palavras que me davam a certeza de que, apesar do desejo imenso de ficar, estavam se despedindo de mim.

Permitia, mais uma vez, que eu fosse embora.

Sim! Eu estava me despedindo daquele lugar lindo e longe de tanta dor, malícia, inveja, guerras, brigas e ganâncias. Um mundo que eu entendia bem, mesmo não gostando e não querendo saber nunca mais..

Me levantei rápido demais do sofazinho em que estava sentado e senti a zonzeira tão comum de quem ainda não está completamente acordado.

Meus olhos embaçaram, um zumbido no ouvido, uma tonteira e tudo parecia estar se desligando.

O Pinguinho de Luz, com seu jeitinho feliz de criança inocente, sem se assustar ou temer meu descontrole, apenas acenou com suas mãozinhas redondinhas e brilhantes.

Minha última lembrança daquele lugar.

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