Um grande amigo de infância, na época, uma criança feliz, esperta e uma das pessoas mais criativas que já conheci, hoje é um mendigo! Um mendigo profissional.

Ele passa horas e dias no mesmo lugar apenas pedindo uns trocadinhos para a sua suposta sobrevivência.

Poderia estar triste por ele se encontrar nestas condições complicadas, não é mesmo? Só que não estou!

Meu amigo é só um grandissíssimo picareta!

Não! Ele não é cego, apesar de sempre estar com seus olhos cobertos com um óculos escuros e o pescoço endurecido ao se comunicar com as pessoas, indicando, assim, uma possível dificuldade no olhar, pior ainda, uma total falta de visão.

Ele também sempre carrega consigo um carrinho de rolimã, onde atravessa o dia sentado nele, com as pernas cruzadas e um cobertor imundo sobre elas. Porém, este bom amigo jamais teve sequer caibras em suas pernas fortes e sadias.

Quando digo de seu fingimento e mau caráter, ele retruca:

– Uso óculos escuros, ué! Tenho um estilo e o carrego comigo como parte de meu vestuário, um visual que adquiri pelas ruas afora, qual é o problema? Nunca afirmei ser cego para ninguém… e você sabe disso!

– Mas e esta interpretação clara de homem cego?

–Ora! Me nego a discutir este assunto, apenas cito o Mestre: Você o disseste! Apenas isso! Responde com uma das mãos no coração e com a outra na velha cartola, ligeiramente carcomida pelo tempo, erguida acima da cabeça em forma de respeito ao divino.

E quando afirmo que o carrinho de aleijado é uma óbvia demonstração de pessoa sem vergonha, já que ele nada tem em suas pernas, ele se irrita e responde:

– Quem é você para me julgar?! Deus?!

Não vendo meios de convencê-lo de suas falcatruas, apenas me calo, afinal de contas, não sou Deus mesmo!

Assim, ele carrega sua vida e sua história de vida. Que do meu ponto de vista é uma tremenda sacanagem com as pessoas que lhe estendem as mãos em muitos momentos e o sustentam sem saber de sua real e confortável situação.

Você o entregaria, caso fosse seu amigo?! Pois, acredite, eu não! Nunca! Apesar de sua enganação diária e a óbvia desonestidade com as pessoas do convívio das ruas, portas de banco, padarias e afins, eu curto suas longas conversas animadas e as muitas histórias incríveis que já vivemos no passado e as que construiu nos intervalos de pedinte.

 

Espera lá, sabichão! Você está querendo me dizer que jamais aturaria tamanha safadeza? E que, sem duvida, caso você o descobrisse nesta condição não teria duvidas em entregá-lo?!

Blá,blá, blá, isto sim!

E aquele seu amigo reclamão, chato pra cacete e que vive sabotando sua vida, com chantagens emocionais, depressões e lengalengas? Por que você não o manda à merda?! Ah, tá! Você respeita e até o considera?! Ok, tá certo, pode crer que eu te entendo!

E aquela outra que vive reclamando da falta de namorado, do peso excessivo e invariavelmente se acha a mulher mais “coitadinha” do mundo, mas que nada faz para mudar?! Por que você não a abandona de vez?! Pois é, há um certo carinho por ela, não é mesmo? Graças ao seu coração bom e o desejo de que ela se reerga e volte a ser aquela pessoa que um dia você conheceu, ou desejou que ela fosse? Uma esperança de que todas as outras virtudes que ela possui venham à tona e ela continue a encantar o mundo como em um tempo passado?

Ok! Tudo bem, mesmo!

Ei! Se você admite estes e outros muitos amigos defeituosos em sua vida, sem abandoná-los jamais, por que espera que eu dê um pé na bunda deste meu querido amigo tão errado na vida?!

Acredite, apesar dele ser um cara complicado e andar por aí, largado e cheio de má fé pela vida… Sim! Mesmo sendo um grande abestado, pode crer, ele é meu amigo! E um dos únicos que possuo e até confio! :p

Poucos sabem de suas ótimas condições e saúde invejável. Apenas a esposa, uns dois amigos íntimos… e eu!

Se você tivesse a oportunidade de conhecê-lo um pouco melhor, tenho certeza de que iria admirá-lo e desejar sua companhia agradabilíssima também. Pois saiba que seu carisma e bom papo são bastante agradáveis e, até mesmo, enriquecedores.

Sem aquelas fantasias sujas e em baixo dos trapos encardidos, mora um homem elegante, disposto, risonho, experiente, viajado e sensível com a condição humana.

Herdeiro de uma bela casa no centro nobre da cidade e outra no litoral, um carro estiloso de design antigo, talvez anos 50, que o torna uma pessoa exótica e ao mesmo tempo tão atraente. Ele, com seu carisma sedutor e amigável, desperta um bem querer onde quer que passe, nas pessoas e elas, por sua vez, o reconhecem, acenam com um sorriso, boa disposição e sempre o recebem com o acolhimento de figura querida. Que ele é de fato… acredite!

Lá está meu amigo carismático e bem quisto por todos.

Ah! Este sacana é um inigualável ser urbano que poucos sabem de quem se trata realmente. Uma lenda viva e imperfeita.

As vezes eu o invejo! Não por sua condição miserável e  inescrupulosa, graciosamente interpretada dia após dia pelas ruas desta imensa metrópole, mas pelo outro, aquele que caminha por aí sem travas, irritabilidades, responsabilidades excessivas, dificuldades desconcertantes, compromissos inadiáveis e maiores inconvenientes!

Um bon vivant! Um bom salafrário!

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