– Quando eu te ver novamente, em um tempo ou plano melhor, será que te reconhecerei?

A chuva caía torrencialmente e a via formar soldadinhos que corriam desesperados pelo chão.

Aquele som de chuva, tão relaxante! Trazia paz e uma tranquilidade imensa. Era uma trégua para todas as dores!

– Será que te verei novamente?! Me perguntou de novo, com seus olhos tristes e cansados.

Pensava comigo que nunca mais veria a chuva e, no entanto, eis que ela caia em ambundância. Preferi apenas reservar o momento ao silêncio, bem melhor assim! Não quis bancar um sabidão conhecedor dos mistérios do Universo. Não tinha certezas e respostas para nada.

Sentia alívio e felicidade nos últimos anos, depois de tantas loucuras e privações. Aprendemos a lidar com nossas limitações.

Deus me perdoe desta minha fraqueza, mas, de alguma maneira, estava sendo liberto daquela vida afinal! Só me entristecia o fato de deixá-la ali, sozinha, caso eu fosse o primeiro!

Não podia fazer nada a respeito! Deus nos dera o livre arbítrio, mas nos proibira de escolher o fim, uma eutanásia como opção! Desistir era cair em desgraça, viver no inferno para sempre, conforme os ensinamentos que recebera no passado! Coisa horrível de se querer e nunca mais veria aquela chuvinha calma e gostosa que caía logo ali!

Lembrei de um passado distante, onde correr na chuva, escorregar pelas corredeiras que ela formava e brincar sem preocupação naquela água gelada, era uma possibilidade que ninguém condenava! Bem, desde que os adultos não vissem.

Creio que nem haviam inventado a leptospirose ainda, nada nos adoecia! Criancas se acham imortais, bobocas.

Até lembrei de alguns amigos que conviviam constantemente comigo. Tempo bom!

Tudo indicava que partiríamos em breve, e agradecia ao invisível por deixarem ela ao meu lado até o fim. Agora tinha um mundo onde existia apenas a mulher que mais amei na vida e eu! Muito querida, alegre e companheira. De qualquer maneira, obrigado, God!

Os amigos?! Pegaram seu rumo e se foram, antes mesmo de tudo começar a mudar. Acreditavam que era aquele lugar que estava amaldiçoado, mas logo se provou que o problema era outro, um sumiço em massa e sem explicação. Eu apenas chamei aquilo tudo de “limpeza”. O planeta se encheu de tanto babaca, sem-vergonhice sem fim vinda de todos os lados e resolveu fazer a limpa… chega!

Acreditava que nem reconheceria meus amigos e pessoas próximas se os visse andando por ali. Fazia tanto tempo!!!

Na real, uma possibilidade bem estranha, já que todos desapareceram, libertos e esquecidos. Não sobrara ninguém!

Diziam que foi um vírus, outros que um extermínio proposital e todo tipo de conspiração. Um monte de bobagens! Se fosse assim, os culpados apareceriam vivos, mas isto nunca aconteceu.

Éramos os últimos no meio daquele mundo gigantesco, mais ninguém!

Aquela parte da cidade, onde resolvemos não sair, desde a época em que as pessoas começaram a sumir, em nada se parecia com o que já fora um dia!

O que se via, era uma quantidade incrível de vegetação, sendo que boa parte era uma enorme floresta impenetrável que se espalhara por todos os lugares.

Ok! Um antigo paulistano que não saberia suportar viver em um cenário daqueles nem por dois dias, esta era a ideia que tinha de mim mesmo, até que tivemos que aprender a nos virar e isto rolou muito bem!

Pois é! Quem acreditaria nisso?! Mas, a necessidade fala mais alto e, assim, vivemos muitos anos por ali.

No começo, as pessoas se desesperavam, porque o desaparecimento não era assim, de uma hora para a outra. Não! As pessoas iam sumindo aos poucos e conscientes de sua hora, sua desintegração total.

lá no começo de tudo, os primeiros desaparecimentos foram reparados em animais selvagens, seres das florestas e dos pólos: Ursos polares,  Macacos, tigres, cobras aves, bichinhos como as borboletas e os infinitos insetos. Todos com partes de seus corpos desaparecendo, até que, no mesmo dia, eram totalmente apagados da face da Terra.

Logo perceberam que os seres do mar, lagoas, rios, riachos e afins começaram entrar no mesmo processo, até entrarem em extinção.

Vivemos alguns anos com a estranheza de conviver com bichinhos de estimação que desapareciam por completo e, assim, cães, gatos, aves e uma infinidade de animaizinhos de milhões de lares e abrigos… evaporaram!

O tumulto, desespero, rezas, orações e histerias eram diários e arrepiantes.

Países de todos os cantos do mundo anunciavam suas perdas. Cientistas percebiam a necessidade de correrem com suas descobertas. Porém, ao contrário das doenças do passado, onde a cura era apenas uma bobagem e que ficavam em segundo plano, as indústrias em pânico, ao perceberem a aproximação da extinção da vida e principalmente a humana no planeta, exigiam descobertas efetivas e ligeiras para uma cura daquela situação terrível.

Todos os esforços eram inúteis, pois rapidamente os investidores desapareciam, os cientistas, os governanres e toda e qualquer ordem, estudos e tentativas de controlar aquela situação se deterioravam. E quando os possíveis salvadores do mundo foram derrotados, as pessoas, enfim, reconheceram que nada mais poderia ser feito.

O caos, a princípio se espalhou. Pessoas saqueavam mercados, indústrias e qualquer local que pudessem retirar algo que se aproveitasse. As relações eram terríveis e desumanas, onde atos tenebrosos, em nome da falta de lei e investigações podiam acontecer a todo tempo. Os meses que se sucederam foram escandalosos e sem piedade.

Aos poucos e com as pessoas sumindo todos os dias, logo perceberam, ou os que sobraram eram mais espiritualizados e humanos, aquele fervor e desesperada necessidade de se ter as coisas se tornou inútil, por isso, foram desistindo das coisas e as deixando para trás.

O não ter era muito mais lógico, já que o espiritual se fazia mais importante do que a matéria, naquela nova terra sem energia elétrica e confortos do passado.

No lugar do desespero, gritos horrorosos na escuridão e atos descontrolados, as pessoas, ao perceberem que alguém próximo começara a sumir, em suas novas consciências, posturas, crenças e atitudes, agiam com mais controle e sabedoria. Permanecer respeitosas ao lado das pessoas queridas em seus momentos finais e praticar a aceitação foi a escolha mais plausível. Sendo assim, mantinham a presença o máximo que podiam, cantarolavam preces serenas, músicas animadas e criavam novos costumes e estados de espírito para se despedirem.

Alegrias e festanças que obviamente foram desaparecendo com o tempo também, já que existia uma evidente falta de pessoas para produzirem e participarem daqueles momentos.

Se a cada dia menos, maiores eram os silêncios, as palavras respeitosas e sinceras e a noção de que tudo estava, mesmo, chegando ao fim. Porque os desaparecimentos jamais retrocederam.

Logo, as festas se tornaram muito simples, respeitosas e carregadas de muita paz. As pessoas se despediam com calma, harmonia.

Valorizávamos o dia-a-dia, o que era quase uma lei, se é que poderia chamar assim, já que ninguém tinha a certeza de nada. E nem era possível nomear alguém para exercer alguma norma ou regra, pois esta poderia sumir horas depois.

Nas despedidas, costumávamos, então, a fazer alguma refeição simples, nos abraçar e a nos despedir sem exageros. Um adeus sincero e carregado de Amor!

Assim, inexplicavelmente, vi milhares de pessoas sumirem! Até a última das pessoas, ficando apenas eu e minha mulher. Os últimos paulistas! Talvez, os últimos humanos na face da Terra.

Senti que ela parou de fazer o carinho em meu peito, que eu recebia com grande prazer.

Até pensei em reclamar e insistir que continuasse, mas ao olhar melhor para ela, notei que no lugar de sua mão… apenas o vazio!

Senti uma tristeza terrível! Pela separação, por saber que iria ser sozinho e não ter conhecimento do meu esperado fim. Ao mesmo tempo em que agradeci por eu ter sido o último a começar o meu sumiço e não a deixar abandonada.

Ela olhou para o próprio braço, que igualmente desaparecia e me perguntou, um pouco ofegante:

– Será que te verei novamente?!

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