Um dia desses caminhava sem rumo pela praia.
Estava sem motivação, sem empolgação, quase sem fé! Nem no que via e nem no que não via!
Era quase um pedaço de qualquer coisa ambulante, o peito doido e os braços congelados!
Eu, um homem velho e cansado, numas destas encruzilhadas da vida.
Me sentia tão cansado e triste que já não podia nem mesmo comigo. Perdido, como não queria ser!
Se você me visse, não acreditaria e creio que até não me veria! Derrotado como nunca quis ser!

– Fases! Acredite!

Escutei perto de mim, alguém que me dirigia a palavra.
Desconfiado e de cara feia, como passei a ser. Fechado, sozinho e a cara sempre assim: feia, triste, mal-humorada… um robô!
Não queria conversa com ninguém, mas o moleque que aparecera ao meu lado resolveu insistir com aquele papo.
Ele tinha uma pranchinha 5’0 debaixo dos braços, os cabelos desgrenhados, a pele bronzeada e um sorriso irritante no rosto!
– E ai Bro? Disse animado, creio até que, aquilo, fora um cumprimento. Sei lá!
Odeio estas conversas de surfista, não é para mim. Sou um homem sério, mesmo porque, não entendo o que dizem! Papo furado demais sobre aquelas bobagens de ondas e blá, blá, blá. É muita alegria pra mim! Sou apenas um velho destruído! Me poupe!
– O que tá pegando, Man? Perguntou com um constante ar de felicidade, aquela maldita alegria de sabe-se lá do que? Coisa de quem vive no mar! Moleques bobos!
Ironicamente, apenas mostrei-lhe as mãos, dando a entender que as mãos pegavam e que não entendia suas expressões sem sentido!
– Qualé cara, tá desanimadão demais! Olha este mar e esta natureza!!! Dizia com uma animação inapropriada para meu estado de espírito.
– Então, legal! Porque você não vai aproveitá-la? Respondi querendo me livrar do pentelho, tentando voltar para o meu silêncio confortável, mas tudo o que percebia era que meus pensamentos estavam ainda mais atrapalhados!
O bom humor e o prazer dele, só por estar diante de um monte de água, me irritava ainda mais! O que pensar? Maconha, lógico? Coisa de drogado! Pensei, com o costumeiro humor pesado que adquirira com o passar dos anos.
Contrário do que eu imaginei, ele não se perturbou com minha “patada”, apenas riu ainda mais!
Acabei rindo também, afinal, o que eu podia fazer? Aquela merda de praia era pública!!!
– Tá certo brother, tá certo!!! Você tá de bode! Normal…
Nem respondi, apenas balancei a cabeça afirmativamente.
– Ei! Cadê aquele cara sorridente? Me perguntou quase em tom de seriedade.

Ora, faça-me o favor! Como se essa gente fosse capaz de ter este tipo de sentimento, ou cabeça para isso. Pensei cheio de preconceito!
Fiquei olhando para o horizonte e respondi:
– Olha lá, uma onda! Porque você não pega sua bóia e cai pra dentro?
– Opa! Detectando uma luz no fim do túnel! Tô vendo que ainda tem uma alma aí dentro – Respondeu contente – Aí, tô ligado, se você quis me “zuar”, falou do jeito certo!!! Hoje eu já caí com a minha bóia e peguei várias!!! Continuava querendo assunto, o pirralho descabelado!
– O que você quer rapaz? Porque está me pegando pra Cristo? Perguntei irritado.
– Cristo? Pô! Aí, na moral, você tá meio redondinho pra Cristo, Bro!!! E caiu na gargalhada.
– Tá bom! Você já tirou o seu baratinho, pode ir embora. Eu tenho espelho em casa e sei que estou acima do peso, agora cai fora! Disse louco de vontade que ele sumisse do mesmo jeito que tinha chegado… rápido!
– Calma lá tiozão, tô na boa! Só estou aqui porque tenho algo pra você. Aí, mandaram te entregar uma parada! Falou o rapaz contendo a risada, enquanto pulava um pequeno murinho para buscar algo. E de trás daquele muro, ele retirou uma coisa que eu já não via há muito tempo! Uma pranchona vermelha e bem parafinada!
– Acho que você se esqueceu disso e faz tempo, hein?!!! Falava enquanto arrastava até mim uma prancha 9’2. Um lindo pranchão.
– Qualé, tiozão da cara feia? Abraça tua amiga aí! Ela estava há muito tempo esquecida. Na boa? Ela manda muito bem!
Fiquei muito incomodado com aquilo, como aquele moleque sabia da minha pranchona? Porque ele estava com ela? E porque ela estava tão conservada?
– Não a reconhece? Dizia com cara de quem sabia de tudo.
Pensei em negar, em dizer que ele estava maluco, que tinha se confundido, mas antes que eu dissesse qualquer coisa, apontou para a parte debaixo dela. Logo ali, do lado da longarina do meu querido e esquecido pranchão: O meu nome! Escrito pelo Shapper da época, revelando, desta maneira, que eu já fui dela e ela ainda era minha.
– E aí brother? Vai ficar com essa cara de bunda, ou vai pegá-la? – Ria o menino – Esse tronco pesa pra caramba!!!

A princípio me envergonhei, quase neguei novamente, mas quando ele a chamou de tronco, aquilo me despertou um ciúme, uma inconformidade!!! Olha o cara ofendendo minha Pranchona, só podia estar maluco!
Então, respondi com cara de gozação:
– Tira as patinhas, cabeção! Já vi que você não tem noção de quem você está segurando! Vai curtir sua pranchinha de moça, que esta aqui é pra homem!
Ele deu risada, como se me reconhecesse de novo. Como se soubesse que ali ainda tinha uma alma! Um ser vivo!
Não me disse mais nada, apenas apontou para o mar, era hora de voltar a vida.

Numa rápida distraída, enquanto eu confirmava, instintivamente, as ondas para o meu pranchão, ele sumiu. Como uma fumaça e exatamente como havia chegado!
Não! Eu não entrei no mar logo que a peguei ou como faria no passado! Mas, fiquei um bom tempo a admirando, a querendo bem! Relembrando de mim nela, como se ela fosse um espelho de imagens congeladas, um enorme Pendrive com imagens gravadas. E nela, me vi sorrindo, me lembrei dos meus cabelos desgrenhados e da pele bronzeada! Pensei: Eu já fui uma boa pessoa!
O que aconteceu? Nos separamos, eu me afastei e sai perdendo! Como sempre!
Analisei minha vida, as boas pessoas que conheci, as muitas derrotas e vitórias!
Não sabia dizer se tinha valido a pena! Se pudesse pegaria outros caminhos?! Não sei!!!
– Ei! De qualquer forma, tudo era como deveria ser, ou melhor, já foi! Falei para mim mesmo.
Meio sem jeito, um pouco confuso e um pouco atrapalhado, tirei a camisa de tiozinho que usava, lamentando a bermuda inapropriada para entrar na água e entrei com a minha velha companheira!
Foram as piores e mais divertidas ondas da minha vida. Os “Retosides” mais prazerosos, mal pegos e, ainda assim, mais uma vez, o melhor dia da minha vida! Como costumava ser!
Tudo aquilo foi um mistério! Aquele dia foi um mistério, mas agradeci em pensamento ao menino, por me trazer de volta a minha alma e meu sorriso desaparecido!
Eu redescobri que ainda tinha um e era, de verdade, um belo sorriso!!!

 

Anúncios