–Crê, de verdade, que as coisas são desta maneira? Esta eterna luta sem fim? Você precisa parar um pouco, respirar e admirar esta vida linda que rodeia seus dias.

Nunca vira pessoa mais calma, tranquila e feliz como o pequenino Sr. Corage, assim mesmo, sem o “m”. Homem bom, atencioso e prestativo. Como poucos e com todos!

Ele tomou um gole de seu chazinho de “sei-lá-o-que” e com seus movimentinhos elegantes, suaves e pacificadores, contrário ao ligeiro e determinado homem que, com grande desenvoltura, cuidava de todo o enorme jardim que cercava quase o quarteirão inteiro de sua casa. Sem contar as muitas obras e consertos sem fim que ele executava, com a agilidade de um garoto.

Colocou a xícara sobre a pequena mesa ao lado de sua cadeira predileta e prosseguiu sua conversa:

– Olha lá! Veja os animais, os pássaros! Como se diz por aí: Deus não esquece de ninguém. Olhou para minha cara de incrédulo, quase um ateu convicto e afirmou:

– O Senhor é meu pastor, nada me faltará.

Tudo bem, já ouvi aquilo tantas vezes, em muitas bocas e maneiras que, confesso, não me comoveu em nada.

– Confia e tenha fé! Sua preocupação o carrega para o buraco, assim como o motoqueiro bobo, inocente e iniciante, que ao ver o buraco na estrada não consegue desviar. O mais experiente sabe que ao invés de focar no buraco, deve-se focar logo ao lado dele. Mira onde deve ir, porque se olha no buraco acaba caindo nele! E riu de sua própria explicação, como se tivesse acabado de perceber aquela verdade!

Levantou rápido de sua cadeira e andou ligeiro para a escadaria que dava ao seu enorme quintal, aliás, muito maior do que a casa, coisa que fazia questão de manter assim, depois me olhou ainda com um belo sorriso no rosto e fez sinal para que eu o acompanhasse.

– Você não gosta de mudanças?

Fiz uma cara de que não era muito fã, então ele me deu um tapinha amigável nas costas, como se lamentando por minha escolha, e disse:

– Uma pena! Porque não depende muito de você! E nem de mim! As coisas apenas mudam! O tempo todo a toda hora.

Desceu as escadarias e no meio de seu jardim extremamente caprichado em flores, árvores, arvoredos e frutas, declarou:

– Nada é o mesmo o tempo inteiro, jamais! Nem este lindo jardim, nem os bichinhos que nele vivem, nem você e nem eu!

Olhei animado com sua felicidade, mas comecei a achar estranho com o que disse a seguir:

– Somos o resultado de várias experiências e de muitos planos deste multiuniverso. Não se surpreenda se, de repente, acordar com uma verruga, ser mais moreno, mais leve, ou gordo, feliz, triste e muitos milhões de possibilidades. Nem mesmo se não lembrar desta conversa que estamos tendo, afinal, pode não ser você e nem eu!

Ri da maluquice que me apresentou, mas não contrariei.

Nem mesmo o afeto inexplicável por coisas e pessoas, aquela energia de empatia e Amor que talvez surja em você, uma atração que vai e vem, que nem realmente estejam mais neles, porque, quem sabe, não sejam mais as mesmas pessoas e coisas que você tenha conhecido de primeira!!! E riu mais ainda de suas palavras, como se tudo o que dissesse fosse dito pela primeira vez e, por isso, uma grande e valiosa descoberta.

– Aproveitemos nossa afinidade momentânea, antes que nos percamos pelos mundos afora.

Admiti que aquilo seria, mesmo, uma excelente ideia e fui colher lindos frutos das muitas árvores, acompanhado do, até então, querido amigo.

Um dia valioso e excelente que me deu grande prazer e alegria, coisa que não tive mais a oportunidade de fazê-lo, pois inexplicavelmente, o pequeno Sr. Corage sumira no dia seguinte e nunca mais tive notícias… um fim, ou uma transferência de planos?! Não sei!

Meu amigo fora abduzido, arrebatado, ou simplesmente partira, como qualquer um?

Depois daquela conversa e do fato que realmente desaparecera, só sei que ando mais atento com as coisas e pessoas ao meu redor, pois talvez tudo tenha mudado mais do que o normal de plano e nem tenha percebido, ou pode ser que quem tenha sido transferido de lugar, fora eu mesmo!

Vai saber?!

 

 

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