Me lançou uma frase desconecta, baixa, quase inaudível, por isto, fingi que não o ouvira.

Porém, com sua voz rouca, finalmente o ouvi dizer, quase gritar, como uma frase decorada:

– Corre o risco quem não tem juízo!

Disse o velho cego, quando passei por ele.

O que ele sabia de mim? Afinal, aquela frase só podia ser para mim, já que só eu estava passando por ali naquele momento!

Sim, só estava ele e eu naquele beco. O que ele queria? Me assustar? Coitado do pobre miserável!

Era uma ruazinha pequena que em grande parte do dia vivia deserta, mas por cortar caminho até meu escritório, sempre a utilizava.

Ele era conhecido como: “O Guru bom de conselho”

– Bom conselho? Bom pra quem? Pensei indignado – Só se for para os outros, já que, na merda em que se encontrava, não poderia ser bom para ele mesmo!!! Não tinha muita imaginação quando as respostas eram para ajudar a si próprio, velho imbecil e nojento! – Finalizei meu pensamento irônico, sarcástico e arrogante!

– Corre o risco quem não tem juízo! Repetiu para mim, uns dois passos depois que passara por ele.

– Juízo? Do que ele poderia estar falando? Eu sou uma pessoa séria, honesta, trabalhadora. Um bom pai, bom marido, um bom amigo e um ótimo profissional de sucesso! Velho Estúpido!

– Ora, velho! Cale a sua boca! Reclamei alto e sem piedade.

– Você não é tão incrível assim! Exclamou o velho, seguido de uma risada catarrenta. Depois continuou:

– Sei, sei, sei! Será que é? Você pode ter dado sorte, mas não é uma boa pessoa. Arrogância, meu filho, não o torna melhor do que ninguém, apenas o torna pior que os demais!!! Falou o Velho como se tivesse intimidade e me conhecesse

– Filho? Não me envergonhe, porcalhão! O que você sabe disso? Como se reporta a mim com esta falsa autoridade? Estou muito acima, sou superior, não percebe?! Quem é você? Guru de quem? Só vejo um velho cego, de rua… um mendigo?

Respondi alterado, cheio de energia e com a minha melhor voz, o de gente de sucesso, autoritário e confiante. Usava o tom certo, os de colocar gente daquele tipo em seu devido lugar, o mesmo que funcionava no escritório, nas minhas decisões imponentes e que faziam meus inferiores tremer.

O velho me encarava com seus olhos esbranquiçados, como se soubesse exatamente onde eu estava, e falou:

– Não sou eu quem digo, apenas transmito as mensagens! Fez uma pausa e em seguida completou sua profecia:

– Hoje você terá a chance de rever sua situação nesta terra, suas certezas e posicionamentos. Você correu o risco, então, vamos julgar o seu juízo!

– Eu, apenas agradeço por finalmente encontrá-lo.

Me sentia ofendido com o desafio do miserável e não acreditava que estava perdendo meu sagrado tempo com aquele velho maluco.

Irritado, virei de costas para deixá-lo falando sozinho, como sempre fazia com as pessoas que me desagradavam, para humilhá-las e as fazer entender quem realmente mandava ali. Desta maneira, continuaria meu caminho para o sentido que já estava indo, mais uma vez vitorioso. Porém, inconformado demais com tudo aquilo, dei uma última virada em sua direção para ofendê-lo, mas ele já não estava mais lá! Inexplicável!

Aquilo me arrepiou, ali não havia portas, janelas e nem nada onde ele pudesse ter se escondido tão rápido. Mas, não demonstrei fraqueza, como sempre, continuei seguro de mim e segui o meu caminho. Cabeça erguida e com desprezo pelo infeliz.

Arrumei minha gravata, ajeitei meu visual impecável e segui orgulhoso.

De repente, não sei se por causa do inesperado nervosismo, ou por praga daquele velho maldito, senti uma forte dor no meu peito.

Parei e respirei aflito, mas uma segunda pontada aconteceu e quase sem fôlego, caí no chão.

Indefeso e petrificado!

Fiquei naquela situação por alguns longos e terríveis minutos. Tentava gritar por socorro, mas ninguém me ouvia, talvez por ser um final de semana prolongado, por causa destes muitos feriados malucos que eu odiava e considerava um desperdício, onde a cidade para e tudo fica vazio.

Ali, já era raro alguém passar nos dias normais, naquela hora da manhã seria pior ainda.

Sentia dor, falta de ar e estava completamente imóvel, até que, finalmente, dois rapazes novos e barulhentos surgiram por aquele caminho.

Fiquei feliz, pensei em socorro, tive esperança de um alívio ou alguma ajuda!

Pois é! Porém, não era o que tinham em mente, pois estavam visivelmente embriagados e com suas garrafas de bebidas alcoólicas quase vazias. Só queriam farra e bagunça.

Devido a euforia de quem está sob o efeito do álcool, deitaram ao meu lado, me abraçaram e derrubaram uma grande quantidade daquela bebida sobre mim, em meu rosto paralisado e tentavam me fazer beber com eles, sem muito sucesso, já que eu era quase um morto.

Tudo o que conseguiram foi dificultar ainda mais minha respiração. Profundo desespero!

A generosidade e a solidariedade deles, se existia, não eram para o momento, porque além de me encharcarem com aquela bebida de péssima qualidade, aproveitaram minha fragilidade, ou minha aparente morte, para roubarem quase todos os meus objetos pessoais.

Acabei apenas com a camisa toda amarrotada, pois a amassaram e rasgaram em uma tentativa frustrada de retirá-la de mim, e a calça com os bolsos virados do avesso, o resto eles levaram!

Tentei me mexer, o que acabei conseguindo, mas com tamanha dificuldade.

Movimentos limitados e a paralisia momentânea, me fez sujar ainda mais naquele chão enlameado pela chuva da noite anterior.

Estava com aspecto deplorável! Irreconhecível!

Eu, que só andava bem vestido, naquele momento, era um moribundo jogado num beco qualquer. Me sentia um lixo humano.

Lembrei do velho cego rindo dos meus insultos e quase pude ouvir:

– Quem é o miserável agora?

Diante de tamanha dificuldade tentava chamar por socorro, mas meus gritos sem sentido, verdadeiros grunhidos e murmúrios afastavam ainda mais as poucas pessoas que por ali passavam.

Em um certo instante, passou por mim uma mulher com uma criança, que se recusaram ajudar e se afastaram assustadas, dizendo que era muito feio beber e coisas do tipo.

Me senti humilhado e revoltado! Porém, impossibilitado de me explicar, me resignei.

Fiquei naquela situação durante o dia inteiro, até ver a noite chegar ameaçadora fria, escura e assustadora!

A noite é impressionante, pois ela tem uma energia específica.

Pode ser negociadora ou impiedosa. No meu caso, daquela noite propriamente dita, a pior delas!!!

Ela não veio negociar, como geralmente vinha para mim, mostrando os meus erros e dificuldades diárias em uma cama macia e confortável. Não! Ela estava ali para me cobrar, me jogar na cara as muitas verdades que a estavam incomodando.

Veio terrível e cruel!

Estava tão frio naquele beco, que me fez tremer dos pés à cabeça. Eu, corajoso que sempre fui, chorei como uma criancinha amedrontada!

Foi assim, neste estado lamentável, que as alucinações chegaram.

Se intitulavam: Os Cobradores e vieram para me arrancar o pedágio.

Primeiro, me apareceu uma mulher linda e sensual, que me fez sentir envergonhado da minha condição: um maltrapilho imundo.

Ela se abaixou bem perto de mim e, com seu jeito sensual, me olhou nos olhos para me cobrar uma beleza que eu já não tinha, um perfume que eu não exalava e o dinheiro que eu não possuía!

Me avaliou, fez seu julgamento e me condenou como um imprestável.

Como não tinha nada a oferecer, me levou os olhos.

O próximo, um senhor obeso, muito bem vestido com seu terno e gravata, além de uma bela cartola em sua cabeça de cabelos alisados, brilhantes e bem esticados para trás.

Este quase nem falou comigo, me olhou de longe, fez cara de nojo e rapidamente cobrou o seu pedágio: minha juventude.

Então, enquanto chorava como uma criança perdida, veio o terceiro e último Cobrador.

Ele era um falador, um brincalhão, que ria da minha condição e me perguntava o tempo inteiro:

– Onde está o valentão, o arrogante, o esperto dono do mundo agora?

Depois de insistir nesta fala, finalmente declarou com cara de deboche:

– Ok! Estou com pena de você, seu merda! Vou te dar uma chance, pois vejo que você tem muito pouco a me oferecer.

Tinha uma cara de zombaria e dava gargalhadas histéricas que ecoavam pela noite e arrepiavam a alma de qualquer ser que a ouvisse.

Quando parecia ter cansado de me zombar, acendeu seu cigarrinho, sentou em meu ombro, como se fora um banquinho e afirmou:

– Zé! Vou te dar uma oportunidade e espero que a aproveite bem. Não, minto! Espero mesmo que você se ferre! E riu com seus amigos, que compartilhavam da mesma sensação, como se fossem um único ser maligno.

– Estou te nomeando o novo “Olheiro” deste beco! Nosso observador! Dizia, enquanto a bela mulher e o senhor gorducho de terno e cartola me observavam de longe.

Então, o Terceiro Cobrador, com seu jeito maluco e gestos acelerados, quase uma caricatura de ser humano, declarou feliz da vida:

– Você andará por aí e selecionará os jogadores. Te coloco na vida que não deseja, onde se arrastará como pode, talvez por anos, quem sabe? Assim, sem moral, sem amores e amigos, como um maluco miserável, meu bichinho de estimação!

Dizia minha condenação, como se fosse uma proposta para um passeio delicioso, um convite de uma festa, sua orgia, sua safadeza:

– Em sua mente, apenas as respostas para a solução dos problemas alheios, a saída para as dificuldades dos outros e nada para você.

Me olhava com uma cara sacana, esperando alguma reação. Vendo que eu apenas soluçava de dor, de desespero, enfim me deu uma forma para resolver aquele enigma:

– Você só conseguirá se livrar desta “brincadeirinha” quando finalmente encontrar alguém tão arrogante quanto você e se sentir desafiado com a pergunta chave que te apresentarei a seguir!

Fez um silêncio, me segurou pelo queixo, como se fosse me dar um beijo de amor, e me disse:

– Só a faça para a pessoa mais arrogante que cruzar o seu caminho.

Então, no meio de suas gargalhadas, o último dos cobradores me fez decorar uma questão e que eu só a usaria quando um ser suficientemente arrogante passasse por mim.

O Terceiro Cobrador se despediu dizendo que eu saberia a quem fazer a pergunta, porque o próximo jogador se exaltaria, se irritaria e me ameaçaria!

Aquele era o sinal para revelar o próximo peão daquele joguinho deles!

Depois de anos em sofrimento, feito um miserável, cobrando migalhas por palavras que ajudasse o próximo, já que este foi o dom que os Cobradores me deram para sobreviver naquela aflição e amargura, finalmente o ouvi se aproximar e iria passar diante de mim.

O som de seus sapatos novos e passos determinados, cheiro de perfume caro, num feriado vazio de pessoas e sons, naquele beco abandonado, ele surgira para me salvar daquele pesadelo.

Senti um arrepio, arrisquei lhe dirigir a palavra decorada há anos, exatamente como o último Cobrador havia me ensinado, mas saiu um pouco fraco, quase sumido.

Era ele, eu sabia, o jogo havia acabado para mim, agora era com ele.

Foi assim que repeti alto e em bom tom:

– Corre o risco quem não tem juízo!

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