Sou apenas um contador de histórias e, como tal, apenas as conto exatamente como as recebi.

Poucas vezes nesta vida me envolvi com as histórias que conto, assim sou eu e esta é a minha missão neste momento. Sim, é tudo o que posso fazer, continuar as contando como um observador distante. Por isto, digo que, esta história é uma história tão antiga quanto rara sobre um Amor especial, mas ainda assim, dizem ser apenas mais uma história.

Tire suas conclusões, tá lá:

Ao ver aqueles rapazes pela primeira vez, assim, sem ninguém para apresentá-los, talvez não se tivesse a dimensão exata do quanto eram especiais, pois tudo o que se observava naquela época era apenas um bando de maltrapilhos, sujos e com suas barbas por fazer!

Elas, as mulheres, apesar do pouco luxo e a vida nômade, eram lindas, felizes, roupas leves e de tecidos esvoaçantes!

Agrupados e sem rumo eram tão felizes que quase explodiam, com suas canções simples e dançantes.

Acompanhados de violão, piano, instrumentos de sopro e percussão, pulavam, gritavam e cantavam, além de sempre acompanharem com palmas bem ritmadas e bastante animadas, que se transformadas aqui em palavras, perdem a força e a musicalidade do momento, impossível descrever aquela euforia saudável!

Tinham algumas carroças, duas ou três, que os carregavam para todos os lados, sem destino e sem pressa nos dias mornos e calmos.

Não pensem que eram julgados ou mal quistos, como é o costume das cidades grandes, com olhos arrogantes e arrastadas pela gordura acumulada da ganância e do egoísmo dos dias de hoje, algo tão comum.

Lá, naquelas vilas, onde eles freqüentavam, não existiam estes costumes inconvenientes, muito pelo contrário, eram muito queridos!!!

Eles traziam alegria e musicalidade pelas vilas, naquelas terras românticas, sem máscaras e de bom coração, onde a pessoa valia mais pelo o que era, do que pelo que se tinha.

O mais velho daquele grupo, era um belo jovem de barba comprida e cabelos desgrenhados, o querido Fizarca. Tão sorridente, honesto, criativo e empolgado com a vida. Amante fanático da natureza, do mar. Conquistava a todos com sua simplicidade apaixonante, seu sorriso infantil e suas histórias sem fim.

Ele enamorou-se da linda Dália, uma menina de pele muito branca e igualmente sorridente, que também se entregou de corpo e alma ao bom Fizarca e seu estilo livre, sem as barreiras e imposições da sociedade “rica” e moderna que naquela época também existiam.

Fizarca era filho de um pescador, um senhor honesto e simples, que nunca se mostrava triste ou indisposto. O Velho José da Barca era um homem tão antigo na vila onde morava que se confundia com sua fundação, assim como sua amada esposa, Dona Maria.

Fizarca tinha este nome graças ao seu pai. Fizarca nasceu José, passou para Zezinho ainda bebê, quando menino ganhou a alcunha de Filho do Zé da Barca e finalmente, no início da adolescência foi apelidado de Fizarca, diminutivo de Filho do Zé da Barca e permaneceu assim para o resto de sua vida.

Ele tocava muitos instrumentos, graças a uma senhora estrangeira que morava na vila desde antes mesmo dele ter nascido e que, por ser muito sozinha, passava horas tocando instrumentos musicais, fazendo manutenções em seu piano, ajeitando os de sopro, afinando os de corda.

Ela proporcionava, desta maneira, a trilha sonora das noites daquela vila de pescadores. Seu humor dava o tom e o ritmo aos sentimentos de toda a vila. A tentativa da Velha Mirtz, como era chamada, de isolamento e fuga de sua vida passada, que era um mistério, ao se instalar nas proximidades da humilde casa do Fizarca, fez com que ele e outros meninos e meninas daquela vila simples, mas de grande harmonia e respeito ao próximo, surgissem grandes mestres da música.

O Fizarca e sua turma de nômades, eram exatamente essas figuras fantásticas que surgem no mundo e que nos iluminam com suas presenças de alto padrão espiritual e caráter humano, já a Dália era definitivamente a musa inspiradora e a Luz da vida do Fizarca, que o encorajava em suas iluminadas buscas. Ela também esbanjava grande qualidade musical, além de ser dona de uma graciosidade ímpar.

Ela parecia ter nascido com o dom de ser a Luz da Vida na Terra de qualquer pessoa que a visse, pois sua imagem de menina linda e feliz, sempre tão querida e disposta, era irresistível!

Podia existir o ódio, a guerra, as palavras de derrota e a escuridão, mas não tinham força alguma naquelas pessoas, que viviam uma experiência à parte.

Eram momentos eternos, ou parecia que seria assim para sempre! E até poderia ser, bastava querer ou apenas não saber do que havia fora dali e não se envolverem, apenas levar aquela vida linda e musical para o mundo próximo a eles.
Houve sim uma parte triste nesta história, sobre saudade e revolta.
Tiveram momentos de distância, de miséria, o choro sentido de quem acabou sozinho, o quase esquecimento, mas não é disto que quero falar! Pois estas lembranças são tão pequenas diante de tantas alegrias!

Ele tinha a lembrança dela desde muitos anos passados e aquele encontro, naquela vida especifica, foi tão mágico, intenso e inexplicável, que ele jurou nunca mais perdê-la, não naquela vida!

Seus olhos se cruzaram cheios de amor, ainda muito pequenos, muito crianças e nunca mais desapareceu!

Encontros como aquele só houveram poucos em nossa história!

Fizarca era o brilho especial da vida da Dália, assim como ela iluminava e preenchia totalmente todas as lacunas e espaços possíveis da vida do Fizarca.

Ele se sentia tão completo que a cada dia que passava sua criatividade apenas aumentava, atingindo níveis onde poucos atingiram, o tornando desta maneira um homem além da sua época, além do compreensível e para alguns, além do aceitável!

Pois aquela alegria e satisfação completa, não podia ser compreendida e nem sentida por todos, o que causava a inveja e, em alguns casos, despertava um estranho ódio, coisas do incompreensível e inexplicável ser humano.

Por isso, para que tivessem sucesso e tranquilidade em suas convivências, tiveram que aprender a controlar aquele bem querer, um estado incontrolável de Amor.

Não digo amor dos grudentos, cheios de apelidinhos e excessos, pois como disse anteriormente, falo de algo especial: do Amor em toda a sua plenitude, dos que se faz mais criativo, mais propenso a acertos e mais radiante!

Foi com este Amor Iluminado que eles percorreram por muitos cantos.

E como atraiam pessoas! Lindos!

Foram aplaudidos, acompanhados, admirados e trouxeram a Luz para a Terra, ou o sentido mais perto desta emoção.

A vila viveu dias excelentes e as melhores vibrações!

Para quem vivenciou aqueles tempos, nunca mais esqueceu. Dizem até que, só de lembrar, o sorriso fácil vem ao rosto, o brilho dos olhos ressurge e ilumina os que estão por perto!

Assim foi o Amor de Fizarca e Dália, uma história rara, completa e hoje, apenas uma linda lenda!

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