Seu sorriso me pegou desprevenido!

Saí no horário certo do meu trabalho e segui sem muita pressa para minha casa, como sempre.

Olhava vitrines, bancas e pessoas pela rua. Apenas flutuando sobre o centro da cidade e admirando tudo o que acontecia ao redor, como um pombo despreocupado, observador e tranquilo.

Sem confrontos e conflitos, apenas um cara qualquer e a vontade de seguir em frente.

O centro de São Paulo é um lugar maluco demais e tudo ali parece ter uma história, um porquê.

Ok! Se compararmos com a Europa e seus milhares de anos de história, somos apenas crianças, uma vilinha interessante. Mas, piro ao pensar nas muitas coisas que esta cidade já passou, viveu e viu.

Estava saindo da Galeria do Rock e suas muitas paixões e cantinhos, meu trabalho.

Pontos onde a cultura negra se destacava, além de outros estilos e gostos. Cabeludos, Carecas, Punks e seus rocks, meninas e meninos dando continuidade às crenças e costumes do passado, além de outras figuras completamente diferentes e inovadoras!

Luzes de carros, motos e lojas… milhares de lojas!

Minha solidão era preenchida com aquelas muitas pessoas que vinham e iam.

Acenava aos conhecidos, aos que me viam passar por ali há anos e me entendiam como alguém chegado, parceiro de dores e alegrias.

As ruas, as milhares de pessoas e eu!

Passei por uma vitrine de uma loja de roupas qualquer e a vi sorrindo para mim! Um sorriso qualquer?! Não!

Me enfeitiçou, conquistou, amarrou para sempre! Levo aquele sorriso em minha mente até os dias de hoje, pois foi tudo o que me sobrou dela! Nada mais!

Um sorriso grande, de boca vermelha, olhos grandes e um cabelo negro até a cintura!

Não parei naquele momento, apenas passei e sorri de volta.

Imaginei que iríamos nos rever várias vezes, rolaria um jogo de conquista e um belo dia iríamos dividir um café em um daqueles muitos botecos sem vergonha do centro.

Um belo papo e estaríamos ligados, juntos e felizes! Amor a primeira vista, com certeza!

Não! Nunca mais nos vimos de novo. Acabou ali.

Nosso relacionamento que até hoje reverbera em minha mente, não passou de um sorriso lindo e feliz. Um sinal de aprovação mútuo e único!

Até hoje eu atravesso a rua, passo pela vitrine e relembro apaixonado de um dos mais lindos sorrisos que já recebera, de graça.

Confesso ser frustrado por nunca mais vê-la novamente!

Se fechar os olhos quase posso sentir novamente aquele momento.

Aquela brisa leve da noite que se iniciava, do som ritmado, balançante e gostoso que só a soul music tem, o baixo da música em evidência, das pessoas animadas que circulavam na calçada com o fim do expediente. As conversas animadas dos barzinhos lotados, pessoas em descontraído happy hour.

Uma sexta quente, vento refrescante e ela logo atrás daquela vitrine… sorrindo para mim.

Um lindo sorriso que me reconhecera como alguém interessante, um cabeludo qualquer da galeria.

Um discreto aceno de cabeça, os olhos brilhantes e bem maquiados, dona do sorriso mais encantador daquela área, daquela cidade e para mim!

A certeza absoluta de nos encontrarmos novamente, da conversa treinada e decorada que teria.

O convite para uma volta, nos conhecer, saber um do outro, entender aquele sorriso lindo e compartilhar tudo o que tínhamos, mas… que nunca acontecera.

Muitas e muitas vezes passei por aquele caminho em busca dela. Nada!

Apenas um sorriso, os olhos brilhantes e o lindo cabelo negro que nunca toquei.

Jamais!

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