Ele andava com uma mão na garganta e a outra no coração, fragilidades reveladas, lamentações cotidianas sem valor algum, nada de anormal.
Seu Noca era trabalhador “dos bão” e “dos forte”, tinha o rosto enrugado e escurecido pelo sol. Não era muito de prosa, mas agradecia a lembrança ao ser cumprimentado.

Com seu jeitinho simples e tímido de quem quase não falava com ninguém, sempre ficava feliz de ser lembrado e ao passar, mesmo de longe, erguia os braços no ar, acenando devagarzinho com suas mãozinhas cansadas – sempre agradecido –, mesmo que ninguém o visse.

Folclórico por só falar o bem, mas discreto e escondido debaixo de seu único e gasto chapéu de palha sofrido, passava calado, voltava mudo e raramente parava para tomar uma cachacinha com algum amigo, mas quando o fazia, nunca esquecia do santo.

Teve um único amor e com ela fez muitos filhos, todos com nome de santo, quem tanto admirava.

Dos doze filhos, só uma era mulher e levava o mesmo nome da amada: Maria.

Bom homem, bom pai e temente a Deus, por isso, nunca dizia o nome do Todo Poderoso sem antes retirar seu chapéu.

Podia o mundo cair, havia o que houvesse, lá estava ele indo pra igreja dedicar fielmente seus domingos de manhã ao “Querido Deus”, como ele carinhosamente dizia.

Um belo dia Seu Noca não apareceu na igreja, adoeceu!

Até queria ter forças para fazê-lo, mas não deu, o corpo se negou a levantar.

Pediu para que a mulher levasse seus filhinhos à igreja mesmo que sem ele, pois não era uma doencinha de nada que justificaria como desculpa para que faltassem ao compromisso com Deus.

Sozinho, isolado na sua casinha simples e afastada de todos, rezou!

Pediu pela família e pelo mundo, mas tinha vergonha de pedir para si mesmo, achava desaforo, pois considerava que já tinha tudo que precisava.

Foi naquela hora – no meio de sua prece –, que ele teve uma visão, um anjo todo de branco surgira logo ali! Aparecera milagrosamente diante dele.

Disse que ele era um homem bom e podia desejar um milagre, pois ele tinha merecimento suficiente para ser imediatamente atendido.

Aquilo foi um acontecimento estarrecedor e abalou o seu mundinho perfeito, poderia pedir um milagre, mas diante de sua vida simples não sabia escolher um realmente bom.

Não tendo certeza do que desejar, perguntou ao anjo se ele poderia pedir depois que tivesse a certeza absoluta. Então, com a paciência que só os anjos possuem, assim foi feito! O ser iluminado combinou que voltaria depois de dois dias para atendê-lo.

Ele pensou, pensou e repensou por horas, mas como não chegou a lugar algum e não conseguindo formular um bom milagre, resolveu se abrir com sua mulher para desabafar sobre a tal aparição, na tentativa de ter alguma solução para aquilo tudo e achar um milagre que fosse justo e solucionador de todos os males do mundo.

O que ele não contava era que sua história iria cair na boca do povo mais rápido do que ele imaginava e que a partir dali ele não teria mais paz.

Foram os dois dias mais perturbados da sua vida, pois passou a ser perseguido por toda a cidade e mais um pouco. Todos querendo o seu milagre, desde os doentes como diabéticos, hemofílicos e leprosos, até os miseráveis, políticos e interesseiros. Uma multidão diante de sua casa, na tentativa de ter para eles o milagre tão desejado.

Naquele momento sua dúvida que já era grande, se tornou imensa. Sem saber o que desejar, perturbado com a invasão de milhares de pessoas que se acotovelavam em seu quintal  a rezar, chamar, chorar, que já em desespero, ergueu seus braços aos céus e desejou que a vida apenas voltasse ao normal, pois um único milagre nunca agradaria a todos.

Assim foi feito e para a sua surpresa ele acordou em sua cama onde tudo havia começado.

Feliz da vida, viu que de fato ele havia pedido o melhor milagre de todos: a boa, tranquila e milagrosa normalidade do dia a dia!

 

 

 

 

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