Sr. Joaquim é homem velho, carente e sem juízo.

Vive sua vida imprudente à busca de atenção e não mede esforços para encontrar um pouco de carinho. Não mesmo e desde sempre! Talvez, por isso sempre fora assim, tão só. Muita carência e descontentamento extremo. Quem aguenta?

Do nosso ângulo, chamaríamos de velho tarado e sem vergonha.

Do ângulo dele:

– Não me enche, seu idiota! Saia do meu caminho!

Pois é! Este Sr. Joaquim, as vezes,  é um pouco desagradável mesmo. Não liguem e nem levem tão a sério! Ele é um pouco esclerosado! E provavelmente não viu nada em você que fosse aproveitável, ou que pudesse tirar vantagem! Eita homem interesseiro e materialista. :p

Ele se finge de coitado para conquistar favores, se faz de fraco para agarrar mulheres e já perdeu a noção do perigo ao expor sua carteira cheia de notinhas para meninas de pouca exigência, ou melhor, seu target!

Tudo parecia ir muito bem em sua vida, até descobrir que seu desafeto Sr. Antônio passou a frequentar seus caminhos.

Sr Antônio, homem das antigas, desfila por aí de chapéu branco, calças igualmente brancas, sandálias confortáveis e para o desprazer do velho Joaquim, é o que costumamos chamar de velho safado.

Um salafrário bon vivant, tão perigoso quanto o Seu Joaquim. Dois experts!

Eles são velhos conhecidos e terríveis concorrentes.

Seria difícil dizer qual dos dois têm o maior registro de canalhice na praça.

Desde jovens envolvidos nas maiores sacanagens, galanteadas e sem-vergonhices. Não há como avaliar o mais terrível. Já ganharam dinheiro demais, mulheres demais, vantagens sem fim.

A diferença de outras épocas, é que ambos já não têm a maior e mais eficiente de suas armas, os belos traços do passado, algo que perdurou até os sessenta e poucos, mas depois da decadência, a lábia foi o melhor truque. E não é que esses dois se tornaram muito bons nisso também?

Aquele era o primeiro encontro depois de anos sem se falarem e nem se toparem por aí. Foi em uma praça muito frequentada e que, talvez por outros lugares já terem suas carteirinhas de pilantras bem carimbada, entenderam que ali era um bom lugar para recomeçarem suas malandragens.

Mas o destino é tão sábio, ou igualmente sacana, que eles se viram, ao mesmo tempo e a descontento, aplicar suas picaretices no mesmo lugar!

Há que se saber que, é mais fácil dois corpos ocuparem o mesmo espaço, do que dois picaretas se permitirem agir no mesmo lugar! Só se forem “amigos”, ou melhor, comparsas, coisa que estes velhinhos nunca foram, nem pensar!

Todos sabem do antigo ditado de que os canalhas também envelhecem e este caso é uma constatação desta sábia frase.

Os antigos Tonho Bico Fino e Joca Grisalina, se tornaram naqueles dois velhinhos carismáticos, de bom papo e malandros. Ok! Seu Joaquim perde um pouco por causa de uma esclerose leve, mas ainda sabe agir, principalmente com mulheres, jovens interesseiras, ou as distraídas.

Os dois se viram, reconheceram, se aproximaram e foram, como era de costume, muito educados e cordiais. Malandro é malandro! Mesmo porque, força física já não lhes pertencia mais.

É fato de que no passado, quando as leis eram mais fracas, os golpes mais cautelosos e menos estudados, tanto quanto o uso dos punhos tinham mais utilidades, os dois puderam medir suas diferenças em um beco qualquer do centro da cidade. Dizem que Seu Joca teve uma certa vantagem, já os amigos de Seu Tonho dizem que o Joca levou sorte e coisas do tipo. Não havia celular na época, nem registros que pudessem confirmar e nem desmentir, ou seja, o imaginário tomou conta e os papos se espalharam! Nada muito concreto! Apenas, tudo indica, que o Sr Joca foi mais eficiente, vai saber?

Tá lá, dois simpáticos velhinhos, em plena guerra fria, tentando a sorte no mesmo espaço, sentadinhos lado a lado no banco da praça. E como sempre, armando a nova arapuca, pode crer.

– Pois é Joca, cá estamos de novo.

– Pois é Tonho, como fazemos? Quanto tempo pra você ir e não voltar mais?

– Não comece Joca, não tenho mais tempo pra estes papos furados. O que você está fazendo por aqui na minha área?

– Sua área?! Sabia que já estou bem familiarizado por aqui? Só não entendo porque você ainda não aposentou?! Tem asilos ótimos por aí.

– Boa, Joca! Se você sabe, porque já não está vivendo lá?

Eles até poderiam continuar neste diálogo humano, verdadeiro, honesto e “saudável”, mas por coincidência, o alvo de ambos acabara de surgir na esquina.

Uma morena de seus quarenta e todos anos, quadris largos, cabelos escovado, maquiagem arrasadora, unhas feitas e dona de um gingado único.

– Preciso ir, tenho alguém para encantar, não posso perder meu tempo com um velho. Isto não é da minha natureza! Disse isto e levantou rápido. Seu Joca já estava se dirigindo em direção à morena, quando Seu Tonho, em ato repetido de perto, passou ligeiro por seu inimigo de estimação, rumo aos rebolados da mulher.

– Ora, seu velho canalha, acha que vou deixar você se aproveitar de minha linda donzela? Disse Seu Tonho, adiantando-se na frente de seu fraco concorrente em termos físicos. Há que se dizer que Sr. Antônio teve o privilégio de se manter muito melhor e mais ágil que o Sr. Joaquim, o que lhe dava uma certa vantagem.

Chegou bem na frente de seu algoz inimigo, fez suas costumeiras apresentações a seu favor, sem esquecer de ridicularizar devidamente a figura cansada, velhaca, ofegante e atrasada do Sr. Joaquim.

Sem esquecer de elogiá-lo e na sequência desmerecê-lo, mas de forma sutil, elegante e profissional.

A moça que já havia visto ambos na região se abriu e sorriu cordialmente ao “bons velhinhos”, pois nenhum, desde que a viram e a tornaram seus maiores objetivos de vida, jamais fizeram questão de se esconderem, ou passarem desapercebidos. Graças a simpatia e a educação que exalavam sem critérios, já estavam rodeando a bela morena há um bom tempo e que, tudo indicava, o dia do bote, com certeza era ali, naquele momento.

Educados, gentis, atenciosos, estes eram seus atributos iniciais. Aquele jogo era velho e a coisa toda era questão de tempo, sabiam utilizar muito bem seus defeitos, fragilidades e psicologia infantil, para encantar e envolver. Claro que, naquele joguinho de sedução os dois eram malandros e vividos. E tudo seria mais fácil, se não fosse a presença desagradável de um para com o outro, pesando o cenário, dificultando a boa representação.

O problema não era ter ou não aquela morena, o problema era como tê-la sem que seu adversário não o derrubasse primeiro? Como atingir a mulher de seus desejos, sem que o outro não atrapalhasse? Qual cafajeste derrubaria o malandro primeiro? Briga de Titãs!

Em poucas palavras, os dois já estavam no coração daquela jovem e interessante senhora.

O Seu Joca era um doce, carente, carinhoso e galanteador.

O Tonho, também galanteador, parecia mais viril, experiente e disposto.

Os dois tão lúcidos e engraçados! Qualquer um valeria a pena.

Eles investiam, lutavam entre si, despejavam elogios, carícias, presentes e intenções. Dona Margarida era a Rainha do carnaval dos velhos pilantras e eles, por ela…  ensaiaram, esquentariam os tamborins. E rebolaram, se submeteram, mas nunca sequer chegaram a desfilar na passarela da linda senhora.

A malandragem menos eficiente e observadora, felizes espectadores das cenas da vida, diziam que aquele teatro só não funcionou, porque um bloqueou o outro. Aos poucos destruíram suas imagens e neutralizaram “seus poderes encantadores”! Como uma mistura maluca daquelas aulas de química, onde um elemento bloqueia o outro, ou como poções mágicas, onde há muito bruxo para pouco enfeitiçado!

Malandro é malandro mesmo? Se é, não sei. Porque nessas, só teve uma pessoa que saiu por cima, a maravilhosa Dona Margarida, que tirou uma quantidade razoável de grana e presentes dos enferrujados novos otários daquela área.

– Essa Dona Margarida é malandra mesmo! Mais dois pro bolso! Comemoravam os eternos espectadores felizes.

Os dois, vendo que deste mato não saia coelho, sumiram no tempo. Ninguém sabe, ninguém viu!

Só sei que já tem gente se arrastando atrás da Dona Margarida de novo, que com seu jeitinho sedutor e seu rebolado arrasador, está levantando mais um dinheirinho pra mobiliar sua casa de praia!

É! Malandro é malando mesmo.

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