Não queria ter saído naquela noite, não estava disposto, mas resolvi agir de acordo com a necessidade e deixar meus instintos em casa, logo ali, num copinho d’água.

Mesmo não querendo, não havia escolha, uma febre surpreendente me acometera e tinha que tomar uma decisão. E rápido!

Lembrei saudoso de meus pais e irmãos, alguém para estender as mãos nessas horas.

Coisa de quem teve algum passado cheio de carinhos e proteções. Engraçado como você deixa de ser importante com o tempo.

Comecei com uma leve dor naquele corte nas costelas, quase barriga, e na sequencia, assim, num estalo e tudo me doía.

Febre, tremedeira, dor de cabeça e um frio desagradável.

Olhei no espelho e me vi péssimo, tinha mesmo que tomar aquela atitude.

Quase chorei! Você sabe o que é se ver e chorar? Eu via ali um cara envelhecido, cansado e entristecido demais.

– Vamu encará, bro! Afirmava com convicção. Queria sair daquela. Apostava naquilo.

A tontura podia ser de dor, da perda do sangue ou da cachaça que rolava solta desde o comecinho da noite. Santo remédio que não cura. Nunca me curou.

Vesti meu velho tênis estourado e fui em busca de ajuda, de algum Pronto Socorro.

Meu velho Chevrolet pipocou, estourou fumaça pelo escapamento e cobriu a viela, onde ele dormia todas as noites, com sua fumaça branca e espessa.

Aquele lugar escuro, com o chuvisco leve e a fumaça flutuando à minha volta como um fantasma, me pareceu tão bonito.

Engatei a primeira e parti rápido, os pneus gastos deslizaram no asfalto escorregadio e, por fim, saiu em disparada, arrastando o “fantasma” consigo. Lindo! Coisa de filme!

Precisava de ajuda e não era de hoje. Senti meu coração bater rápido, maldita palpitação!

Queria dizer pra alguma alma querida que já não podia mais, que não estava bem há muito tempo e por um período longo demais.

– Ninguém merece! Ninguém quer saber! Esmurrei o volante de ódio. Perdi, por um segundo, o controle do volante e quase atropelei um velho mendigo próximo a sarjeta.

Ele se desequilibrou e caiu na calçada, espatifado!

Não parei, vi que estava bem… apenas um bêbado.

– Maldito velho desgraçado!!! Gritei igualmente descontrolado, velho e sem rumo.

Xinguei enraivecido, apenas querendo desabafar, ser cuidado e percebido.

Pois é! Não passou despercebido mesmo. O carro da polícia logo ali, na esquina, analisando minha má vontade, meus atos condenáveis, covardes e sem amor.

– Que se faça a lei! Pensei com o corpo gelado.

Dizem que violência gera violência. E a ignorância, dor, ódio e miséria? Tudo de ruim a quem gera a maldade.

Ei! Não sinta dó, você não me conhece. Guarde seus sentimentos humanos a alguém mais apropriado.

Parar?! Me entregar? Desistir? Aquele corte, o sangue nas vestes, no carro e em todos os lugares? Poderia explicar? Você pararia?

– Foi uma luta justa. O cara era “forgado”. Um playboy de bosta!

Chevão voando baixo e os cara atrás. Se é loko, doidão?!

Minhas forças, visão, meu mundo e tudo mais sumiam, mas a coragem estava a milhão!

Quem não sabe o fim deste show, nunca andou por aqui. Periferia!

– Só não acredito que esta parada tá rolando comigo! Por Deus, mano!

Eu era um menino bom! O mais disposto e engraçado da minha rua e escola.

Era o quadrado no alto, o sorriso no rosto e o pé no chão.

– Pé no chão, moleque! Dizia minha mãe, mas este era outro pé… o da razão.

– Se todos são Majú, que é por mim? Dizia um parça que subiu… moleque firmeza!

– Majú! Negra linda!

E este meu sorriso no rosto sem sentido?!

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