Colocou o sapo sobre minha bancada e disse:

– Aqui está! Quero que você disseque este sapo.

Lá estava ele, o tão esperado sapo.

Era dia de me aprofundar nas entranhas do sapo e retirar o seu melhor.

Coitado! Chegou o fim tão evitado.

Barriga pra cima, olhos parados, braços e pernas abertas, como em um belo dia de sol.

 

O sapo:

Verde em cima, pintas pretas, gosmento, olhos avermelhados, boca aberta e língua pra fora. Barriga branca com um leve tom amarelado… morto! Definitivamente.

 

Coitado do sapo! Não carrega nada além de sua própria carcaça.

Ok! Poderia ser um comentário triste ou discriminatório, porém, muito provavelmente, este detalhe não é nada ofensivo para ele, muito menos naquela hora! Bom, eu acredito que não, já que aquele sapinho, logo ali, em minha bancada, me pareceu um destes bem comuns.

Sapo livre da periferia, que sempre teve muito pouco, pediu pouco da vida e em troca, recebeu apenas algumas moscas e afins, nada mais.

Não era um sapo gordo, com cara de folgado e que teve tudo em mãos. Não! Sapo batalhador.

Será que teve filhos, uma mulher que exigia maior organização e contribuição?

Os filhos, aquele monte de girino querendo a atenção deste pobre sapo. Queriam ir para a praia, ao parque, ao Mac Donald’s?

O caçula que adoece, os pequenos que brigam na fila do brinquedão, na escola e no mercado. E lá está o sapo, tentando ser digno, honesto, sem demonstrar seu cansaço profundo, suas muitas derrotas.

Ao observar mais um pouco, imaginei que aquele sapo enquanto jovem, corria atrás das Sapas, ou seriam Pererecas… sei lá. Tudo por umazinha rápida, sem querer desprezar ninguém, mas sem amarras.

– Na moral! Tô solto na vida é pra zoar!!! Dizia o sapo.

UM sapo como outro qualquer, mas muito afim de viver e de curtir.

Curtir a lagoa! Um saltinho na vitória-régia, uma mosquinha pra aquecer o estômago e muito papo furado com a galera: Coach! coach! E todo mundo rindo… só alegria!

– Sapo que é sapo não dá pulo fora da lagoa!

Até que um dia, tá lá… deu ruim!

Olha lá o cara esticado na bancada. Bisturi na pança e as tripas pra fora! Que coisa!

Onde foi parar a alma do Sapo?!

Sua mulher, a Dona Sapa, em casa, sozinha e se perguntando como a vida pode ser assim tão injusta?

– Ontem mesmo ele estava aqui! Só queria um pouco de atenção! Grita e esperneia a Sapa desesperada.

Pois é! Vacilo na lagoa? Logo este sapo esperto, vivido, cheio de ginga e malandragem? O cara!

– A vida é assim, Seu Sapo! Antes você do que eu. Resmunguei.

Nem velório teve. A galera coaxando estarrecida:

– O Seu Sapo já era! Foi pego pelo maluco da redinha.

Eles não sabem que este cidadão da redinha é o Sr. Orlando. Especialista em arrumar sapos pra escola.

Só sei desta história porque me contaram, eu mesmo nunca vi.

O Sr. Orlando caça sapo na lagoa pra escola.

– Pô, Sr. Orlando, sacanagem com este sapão aqui! Pensei comigo, enquanto admirava o corpo esticado do anfíbio.

– Caramba! O cara podia ter vivido mais e curtido também, mas o destino o colocou nas redes do tiozinho do portão.

Na real, nem sei qual é a função exata do Seu Orlando, só sei que ele cuida do portão e pega sapo. Bem, é isso que dizem dele, se é verdade, ninguém sabe.

Este sapo me fez viajar na maionese e até me deu uma certa dó. A vida encerrada assim, tão inesperadamente.

Será que ele sabia o que estava acontecendo com ele? Seríamos o sapo de alguém, com o destino certo… uma bancada gelada e pronta para te fatiar? Tudo não passa de um grande engano, um acaso?

Tinha 45 minutos para dissecar o sapo, mas diante de tantas perguntas sem respostas e a empatia pelo sapo, me atrasei demais.

Só entendi que havia tomado um zerão, quando o professor passou por mim, retirou o meu sapo, me deu algum sermão e se retirou da sala apressado, com meu “amigo” sapo intacto, dentro de um isoporzinho.

Tudo nesta vida é assim mesmo, rápido, objetivo e cheio de moral. A minha foi:

Se te derem um sapo, disseque-o logo, antes que você se familiarize demais! Sua empatia vai fazer com que você pague o sapo!

 

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