– Sisudo?! Isto é coisa de gente com dor no Siso!!! Dizia uma amiga querida, talvez disfarçando suas próprias dores e decepções!

Hoje, estou valendo a mesma coisa que este dente! Na escala dos mais bem quistos, não passo de um Siso. Se arrancar é um favor, quem repara neste cara?!

Esta minha cara sisuda, de atos brutos e sorriso amarelado, não condiz com a alma boa que carrego! Eu sei disso, mas todo mundo tem seu Dia do Foda-se, porque eu não posso?

Sisudo, mal humorado, de passos pesados e olhar desinteressado. Daria um belo personagem dos Muppets!

Quem vê cara não vê coração? Creio que não e se vê também.. e daí?! Tá incomodado? Passa lá em casa que tem umas três contas atrasadas e sem esperanças.

Estou aqui faz muito tempo, amarrado nesta cadeira dura, de paredes amareladas e sem maneiras de encontrar a graça.

Eu sei o motivo. Ninguém é só maravilhas, muito menos eu, pode crer!

Vai ver que mereço, que sou pessoa ruim e prepotente.

Olha lá, não é isso que estas pessoas merecem?!

– Pega! Surra no pilantra! Porrada!!!

Vi as pessoas correndo em minha direção, na tentativa desesperada de pegar o rapaz logo ali, “voando” na frente e em desesperda correria.

Assustei, pensei que era comigo.

– Descobriram meus pecados, meus textos medonhos, minhas maldades obscuras, o desejo profundo de que tudo se exploda! Pensei com o coração acelerado. Até respirei aliviado quando percebi que não era comigo.

Me censuraram por não segurar o garoto, de nem ter tentado, apenas encostar e dar espaço para ele continuar seu vôo rumo ao infinito.

Sei lá! Acho que senti mais dó dele do que dos brutamontes que queriam pegá-lo, massacrá-lo… dar o castigo merecido!

Os olhos do acusado, seu desespero e fuga desenfreada não condiziam com o “seja lá o que for que ele tenha roubado”, meu coração mole não conseguiria compactuar com o cacete que ele levaria, caso eu o segurasse. Mas, mesmo com toda a minha “covardia”, ele foi pego.

Já vi brigas na escola, na rua, já até participei de brigas em grupo, orgia de socos e safanões, mas a sova daquele menino foi além! Beeem alem!

Não me tome por herói, pessoa elevada e coisas do tipo. Não se engane! Sou comum, daqueles que não há torcida e gritos de guerra! Aquela figura que na arcada dentária fica lá atrás. Sou um sisudo.

Me acovardei, sim!

– Covarde! Me acusou um daqueles monstros que passou por mim, espumando ódio.

“Imbuído do desejo de vingança e da desforra”, lia-se na capa do jornal sensacionalista, no dia seguinte.

A manchete não viu o violentão se divertindo ao massacrar o menino, nem quis saber se alguém tinha alguma opinião que fosse contrária aos “valentes justiceiros”.

Eu os vi! E eles riram da minha cara, debocharam, escárnio total, cuspe na cara e chute na canela!

Ok, este texto tá foda! Foi mal! Desculpa aí por isto. Tem dia que a gente fica assim, mas amanhã passa.

Aí, o povo diz: – Ninguém merece! Porra, então o que eu tô fazendo aqui nesta merda?!

Lá longe tem uma porta que reflete minha imagem e que sinceramente não gosto. Não sou o meu fã número 1, colocaria muitas pessoas na minha frente quando o assunto é o visual. Assim como uma gerente arrogante daqueles bares luxuosos, ao me ver ali com aquela cara sisuda e cansada. Com certeza me barraria. – Você, não! Você não condiz com o visual adequado desta balada interna que está rolando aqui na sua cabeça. Seu feião!

Pois é! Eu entendo esta má vontade, não estou nos meus melhores dias.

Estou mais para um bar escuro, pouco freqüentado e de bebida barata. Tudo bem!

Se virão dias melhores?! Ah, deve vir… sempre vem! Mas, hoje não! Minha balada está meio fracassada… uma boate gótica, deprimente e cheia de caras sisudas, assim como as minhas.

Hoje a preferência é de quem não tá no barato. Para estes, as portas estão abertas.

Vim com meu Chevrolet velho, barulhento e esfumaçante.

Na velocidade da lei, obedecendo o radar, desviando dos buracos e sozinho!

Até quis trazer meu cachorro, pensei: quem sabe dar um trato nele, com shampoo, coleira anti-pulgas e ossinho pra morder no final? Porém, ele disse não. Rangeu os dentes e demonstrou repulsa por mim! Acho que esqueceu que sou eu quem coloca a comida no pratinho! Lamentável!

Hoje estou assim, sou um cara sisudo, de carro sisudo, com pessoas sisudas e um cachorro sisudo!

Aconselho nem vir. Hoje, nada me alegra! 😦

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