Fazia um tempo que estava com aquela sensação estranha e assim que entrei vi o menino chorando.

Não era um choro escandaloso e desenfreado, tão comum nas crianças.

Era um chorinho controlado, silencioso e bem discreto.

Ele não queria que ninguém soubesse que, as vezes, batia uma coisa incomoda. Talvez um medo, uma estranheza, saudade de outros tempos e até mesmo um medo.

Menino bom!

Eu sei de seu valor e o carinho que seus olhos brilhantes carregam.

Um querer bem dos mais puros, francos e de todo o coração.

Ele já entendeu que certas coisas nunca irão mudar.

Creio que captou o passo lento, morno e quase desinteressado dos adultos ao seu redor, para com as muitas dores do mundo e a dele próprio.

Quis até se conformar com as muitas formas desagradáveis com que os adultos lidam com as dores e fraquezas. Tal qual uma fera ao atacar sua presa, irracionais, intolerantes… desumanos!

Não sabia se esticava minha mão em sua direção, ou simplesmente fechava a porta daquele ambiente escuro para voltar aos meus compromissos, minhas obrigações de homem sério e formado.

Minha alma cansada e responsável dizia que a vida era assim mesmo e que o menino tinha que crescer. Fazer o que?

– Não temos como impedir esta realidade. Ordenava o adulto, que sempre me perturbava com sua frieza diária, pressa e horários marcados.

Porém, desta vez resolvi deixar ele falando sozinho e preferi ouvir o menino, sem interferir em suas descobertas e decepções, apenas sentei na beirinha da cama e  fiquei por ali, em igual silêncio, acompanhando  o fim de seu chorinho.

Não passei a mão em sua cabeça. Não parecia conveniente, afinal o adulto sabia que as dores são parte do aprendizado e, mesmo porque, não queria um conflito por ali, mas deixar a coisa fluir, se acalmar… voltar aos eixos.

Por fim, abri um livro de figuras coloridas, fiz um copo de Nescau e deixamos o sorriso aparecer de novo, assim, bem devagar!

Ele me abraçou e agradeceu a minha presença.

Eu segurei meu choro infantil e fiz uma piada qualquer, coisa do adulto que também mora aqui neste velho coração.

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