Estava em paz! E era uma paz das boas, daquela que não se estranha ninguém!
Não carregava quase nada comigo, então não tinha muito o que perder. Mas, gelei quando aquela figura se aproximou.
Homem de rosto castigado pelo sol, rústico e sofrido. Vestia roupas opacas e surradas. Uma mistura monocromática, graças ao excesso da poeira das estradas de barro.
Em uma mão uma garrafa quase cheia, na outra um cigarro que liberava uma quantidade impressionante de fumaça que eu quase não o via detrás daquele fumacê. Talvez de palha e talvez não.
Era uma figura sem nenhuma delicadeza e tão grosseira que dava medo por sua truculência. Despertava aqueles medos de criança, do bicho papão, do homem do saco e coisas do tipo!
Se não fosse quem sou, se não tivesse a firmeza e a vivência que tenho, fugiria assustado.

Engraçado como esses medos somem da gente com o decorrer do tempo!rsrs
Ele chegou atrapalhado, espalhando fumaça e mal hálito, mas numa simplicidade e uma humildade de dar dó.
Tive a sensação, por um instante, de ser coisa de outro mundo, uma visão, uma aparição de outro mundo.
Para não me comprometer, do jeito que estava, continuei! Imóvel!
– Bás tarde, moço! Disse com sua voz grossa e catarrenta.
Balancei a cabeça concordando, sem deixar transparecer a alma boa que carrego dentro de mim.

Preferi ser distante, com a melhor cara má que podia. Esta, nem de longe, assustaria aquele caboclo acostumado com a sua própria… bem mais intensa!!!
Seu olhar avermelhado e remelento e seus dentes estragados, não condiziam com a força de sua voz.
Retirou seu chapéu sofrido de vaqueiro, limpando o suor que lhe escorria pela testa e puxou um assunto:
– Tá fazendo o que por estas terras, mizinfi?
Ai cacete! Pensava arrependido de ter saído do hotel com a ingênua intenção de tomar um solzinho no meio daquele fim de mundo. Só queria curtir o meu silêncio na presença de pessoas, continuar sendo o bom observador invisível de todas as tardes! Porém, agora isto era impossível, fora descoberto do meu esconderijo fechado a céu aberto, me resgataram do meu disfarce de Homem Invisível!!!!
Olhei com meu olhar de poucos amigos, daqueles de paulista que não gosta de intimidade, e respondi:
– Ainda nada… só admirando o mar!!!
– Tá é certo, sim sinhô! Respondeu dando um trago na sua garrafa com um dos olhos fechados e o outro sempre ligado em mim.
– Cê tá de passeio? Continuou sua entrevista sem a minha autorização.
Me perguntava o porquê daquele ali querer saber tanto de mim? Porque comigo, Senhor? Estava inconformado com a atitude intrometida daquele estranho.
– Tô! Respondi sem muita certeza se deveria.
– Cê é de Sumpaulo?
Se ele soubesse como é difícil responder tanta coisa, ainda mais para uma pessoa que vem de uma cidade desconfiada e judiada como a minha!!! Em São Paulo aprendemos que informação demais é ruim. Como deve ser bom ser de cidade pequena, pois as conversas, muitas vezes, são apenas conversas mesmo.
Olhei na cintura do indesejável entrevistador e vi que ele carregava um facão. Opa!!! Pensei. E mais uma vez meus sentidos já tão acostumados a serem desconfiados, apitaram, ou melhor, berraram!!!
Ei! Não me julgue, afinal, no meu lugar você poderia ter a mesma reação! É uma somatória fácil de se fazer lá na terra de onde vim: Homem feio + roupa surrada + bebida + fumaça suspeita + facão = “Perdeu Playboy”!!!

Talvez estivesse sendo um babaca e aí a somatória seria outra, pois ali podia ser também: Filmes brasileiros com violência exagerada + Cabeça traumatizada de um besta que vive em uma cidade violenta + Frase cretina de filmes brasileiros = Um idiota preconceituoso completo, por julgar precipitadamente as intenções de um estranho com uma aparência simples!!!

Conclusão:
Não! Ele não queria nada de mim, apenas uma prosa rápida enquanto bebia a água de sua garrafa.

Não! O cigarro não era mesmo de palha e depois de um dia inteiro de trabalho pesado, ele confessara se sentir aliviado com aquele fumo, e se sentia livre de horríveis dores no corpo.

O facão fazia parte de seu instrumento de trabalho, assim como o notebook de qualquer trabalhador das cidades grandes.

Pois é! Depois daquele dia nos vimos muitas outras vezes e batemos bons papos.

Era uma homem simples, de bom coração e de grande conhecimento sobre as tradições e costumes do lugar, o que me deixou bastante feliz e tranqüilo.

Seu José deixou saudades, bons papos aqueles de final de tarde!

Homem bom, tranqüilo, simples e de bom papo!

Sim, agora eu tenho certeza, preconceito é uma merda, mesmo!!!

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