Desacelerando, desacelerando… será que vai parar?!

Fiquei quase 15 minutos diante da porta do mecânico, ou melhor, daquele que há pouco tempo foi meu mecânico. Descobri atordoado que ele se foi!

Tudo estava lá, como sempre, mas no lugar da placa velha e um pouco torta sobre a porta de aço, outra placa encontrava-se no lugar, uma que tenho visto mais do que o normal e que tem se espalhado por muitos estabelecimentos comerciais desta minha terra querida. Nela, em letras vermelhas, extra bold e brilhante, vi: Aluga-se.

Aquele “Aluga-se” soou como: Aqui jaz.

Me perguntava: Onde estaria o Alemão?! O que aconteceu com aquele cara sensacional e que, graças a sua capacidade impressionante, arrumava os mais variados problemas automobilísticos do bairro?

A Mecânica do Alemão morreu, não podia acreditar naquilo. Olhava para a placa novinha em folha ali pendurada e igualmente torta, mas ao invés de visualizar uma solução, um progresso, ou qualquer possibilidade de alguma mensagem positiva, apenas percebia que algo de nada agradável surgira ali.

O salvador, o cara que dava uma segunda chance para o meu velho Chevrolet, se fora.

Minha cara decepcionada devia transmitir uma surpresa além do normal, porque um homem que passava no exato momento, com sua lata velha fumegante, me acenou com seu dedo polegar cravado para baixo, como decretando definitivamente a “morte súbita” do Alemão. Fechara, desistira da boa luta e falira de vez!

O Alemão faliu e com ele uma quantidade enorme de conhecimento, ajuda e confiança afundaram também.

Uma punhalada nas costas de todos os que ali freqüentavam, a espelunca imunda e engraxada do velho Alemão.

Sem nem mesmo desligar meu carro fiquei ali, boquiaberto com aquela situação. Um golpe inesperado, um sinal cruel de um país desequilibrado, desumano e capenga!!! Mataram um dos melhores mecânicos do meu bairro e, talvez, o mais honesto, com certeza!

Será que sua honestidade e gentefinísse o levou a falência?! Um pouco mais de desonestidade o teria salvo da falência garantida? Será?!

Estava de férias e ao voltar ele já não estava mais ali! Mudança às pressas, sem referências e cartão de visita com telefone. Era um amigo que se fora pra sempre, tal qual uma morte.

Saí dali em velocidade reduzida e decepcionado, ninguém mais era por mim, ou melhor, pelo meu pau velho arregaçado pelo tempo. Quem mais teria a paciência que o Alemão tinha comigo ao ter que testar e parafusar, engraxar, acelerar e desacelerar, trocar peças e salvar outras e todo aquele ritual, mês sim e mês não?!

Me vi sem saída para aquele problema, aquela tragédia do destino… um golpe.

Tudo o que poderia fazer era continuar a minha vida… tocar o barquinho em frente.

Sentia fome e por isso, assim como havia planejado meu dia, resolvi desanuviar as ideias e passar na Quitanda do Mané, para comprar minhas frutinhas de sempre e bater um papinho. Quem sabe descobriria o paradeiro do Alemão?!

Entrei na rua devagar e parei diante da quitanda.

 

Fiquei quase 15 minutos diante da porta da quitanda, ou melhor, daquela que há pouco tempo foi a minha quitanda preferida. Descobri atordoado que, mais uma vez, ela também se foi!

No lugar da plaquinha velha e carcomida pelo tempo, lá estava o mais novo terror do meu bairro:

Aluga-se

 

 

Anúncios