Ando por aí cabisbaixo e sem grandes conclusões!

O destino nos impõe muitos encontros e nem todos são um sucesso, mas também não são um fracasso por completo.

Hoje eu a vi em meu espelho, parecia um fantasma e, pela sua cara de medo, pude logo compreender que boa coisa eu também não representava para ela. Eu era, a partir daquele momento, sua assombração, o seu medo do desconhecido e sua mais nova preocupação.

Não tive medo dela em nenhum momento, a achei, até mesmo, bem interessante, alguém que eu gostaria de conhecer, conversar e saber um pouco mais.

Muitas coisas nesta vida têm sido bem estranhas, acho que, por isso, não tive nenhum receio, mas ainda não sei o que dizer sobre tudo o que tem acontecido comigo nestes últimos anos.

Estou um homem solitário, outros na minha idade ainda podem se dar ao luxo de serem joviais, dependentes e se apoiarem em alguém. Eles se encontram sob proteção de um pai, uma mãe, um irmão ou algum amigo. Eu não tenho ninguém… estou só!

Não sou só, não é uma solidão comum daquelas que não há pessoas. Não é isso! É uma solidão psicológica, algo opcional, um tempo que me dei, uma distância para analisar a vida, mas ainda vou voltar. Creia nisso.

Há uns 20 e poucos anos atrás eu tive minha primeira perda. Minha mãe morreu meio maluquinha, teve algum problema em seu cérebro e, aos poucos, se apagou. Logo em seguida foi meu pai, que também morrera rápido e sem explicações. Apagou assim, de uma vez e todas as minhas bases, meu porto seguro… se foi!

Me vi em um mundo introspectivo, sozinho e em profundo silêncio bem rapidamente e, por um segundo, quase enlouqueci!

Coisas estranhas têm acontecido comigo desde então, mesmo que eu aparente serenidade e um jeitão de que tudo vai bem.

Começou com uns sonhos muito reais, onde me via conversando com pessoas que nunca havia visto e, o pior, acordado com vultos destas mesmas pessoas ao meu lado. Era algo muito rápido, uma mancha quase irreconhecível, mas ainda assim, estranho.

Com o tempo pude perceber que o cenário do meu quarto e o corredor que dava para o banheiro, também começara a se portar de forma estranha. Surgiam caixas coloridas, canos e objetos que não pertenciam ao meu mundo, minha realidade. Eram visões que estavam lá e no momento seguinte, já não estavam. Puft! Sumiu!

Cada ano que passava, aquela realidade parecia perdurar, como se estivesse se misturando com a que eu vivia.

Percebi com o tempo, e a contragosto, que podia atravessar lugares e, até mesmo, mundos por aqueles “buracos” [como comecei a chamar os portais do meu corredor] e a princípio, um pouco amedrontado, passei a atravessar aqueles “buracos”, sair em lugares incríveis, cortar caminhos e ganhar tempo. O que me deu uma certa euforia e estranheza.

Aprendi também que podia fazer um intervalo desta vida comum e me ausentar dela, sem que, com isso, perdesse o tempo e espaço dela. Nunca deixei de frequentar e vivenciar nenhum momento sequer. Ao mesmo tempo, estudava e me aperfeiçoava em assuntos de interesses que sempre desejara.

De uns tempos pra cá outras experiências têm acontecido comigo. Ganhei, se é que posso chamar estes acontecimentos de ganhos, como um presente ou coisa assim, um novo dom! Uma nova especialidade surgiu em mim, o poder de voltar no tempo e refazer tudo aquilo que considerava um erro. Eu posso reviver uma situação que teve um fim desagradável, inesperado, ou que me pareceu errado e mudar tudo.

Confesso que, ao perceber esta minha qualidade, voltei várias vezes no tempo para tentar melhorá-las… e consegui!!!

O resultado em que me encontro é o que decidi como ideal, sinceramente não sei se tem sido bom para mim, ou para as pessoas ao meu lado, mas tem sido muito interessante.

Percebi com o tempo que a única coisa que não posso mudar é a Morte, esta parece ter um propósito definido.

Na real, até já me vi salvando muitas pessoas de verdadeiras enrascadas, coisas que, tenho certeza, poderiam acabar bem trágicas, mas nunca soube se as salvei de um fim iminente, ou se era pra ser do jeito que escolhi.

Neste momento estou dentro de uma etapa da minha vida bastante ponderada. Estou evitando alguns encontros e ficar perto das pessoas. Preciso pensar melhor sobre tudo o que aconteceu comigo até aqui.

Já estou há alguns meses isolado em um lugar que poucos poderiam estar, pois estou me sentindo um pouco vazio, desinteressado pelas pessoas e suas maluquices em conquistar coisas que já não me interessam.

No começo tudo era divertido e tinha um gosto de vitória, poder e soberania. Não há situação, objeto e pessoas que não tenha conhecido e impressionado.

Tudo aquilo que você consegue imaginar, eu já tive! Todos os lugares que você desejaria conhecer, eu já conheci.

Esta falta de segredos e conquistas está pesando sobre mim neste momento.

Seria pecado me achar uma espécie de Deus?! Talvez… mas é como me encontro!

Estou dando um tempo desta realidade humana e simplória. Tudo tem sido bem divertido e incrível demais! Mas, me sinto só! Uma solidão sem explicação.

Não conheço mais ninguém que possa viver o que eu vivo e tão pouco posso trazer alguém comigo para esta realidade.

Tudo o que posso oferecer são bens materiais, conforto e prestígio.

Ok! Eu sei que parece bem ridículo dizer isto assim, desta forma tão despretensiosa, mas creia, há muito mais para se ver, viver, conhecer, sentir e querer do que as coisas que você imagina como as mais preciosas e absolutas do mundo.

Estou há alguns meses aqui neste lugar fantástico. Porém, sei que quero voltar para a minha vida simples de casado e pai de família. Todos lá são maravilhosos, queridos, lutadores e me amam. Nada, nem mesmo nesta minha condição especial em que me encontro, pode substituí-los.

Minha mulher querida e seu jeito engraçado e amoroso, meu filhinho que amo e precisa da minha presença. A adolescente que, mesmo me desprezando com sua rebeldia infantil e sem motivos, parece me querer por perto. Amigos engraçados e batalhadores. E todos os que me rodeiam transmitem um algo especial, tão difícil de explicar, mas que fazem toda a diferença e com que eu queira estar por perto, além de preencher minha alma.

São estas lembranças que me impulsionam e me fazem querer voltar. Por eles e este excesso de humanidade.

Daqui de onde estou posso ver o mar, as montanhas e um pôr do sol maravilhoso. Gostaria que estas pessoas estivessem aqui comigo, tudo teria ainda mais sentido, mas não posso.

Esta é a minha realidade, ninguém enxerga ou entraria em um “buraco” assim, sem mais nem menos. É uma coragem que não sei de onde tirei.

Se explicasse o que tenho vivido, não entenderiam.

Amo a todos e caminharei pra frente nesta “realidade paralela”, mesmo que um tanto só!

E esta solidão perigosa e cheia de ideias parece estar sendo invadida por alguém que me vê como uma assombração.

Ela sente o mesmo medo que um dia eu senti, quando tudo começou.

Ela se assustou comigo no espelho!

Um novo portal se abriu e eu a encontrei naquele espelho do banheiro!

Quem é você?!

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