Sentado no ônibus rumo ao trabalho de todo dia, leia-se todos os dias: de segunda à sexta das 9h às 18h, em transe profundo com aquela mistura de sono terrível, música no fone com o barulho e os sacolejos constantes do busão, pensava sobre a vida e a tão desejada sexta, que parecia estar a milhares de quilômetros de distância daquela realidade abafada.

Imaginava nas mil e uma formas de como eu iria me divertir e curtir da melhor maneira possível todas as minhas possibilidades, mesmo que 99% fossem uma criação de um desejo sem fronteiras e completamente fora do meu alcance. Como dizem: Imaginar não custa nada e, confesso, eu estava cada vez melhor naquilo… naquela arte.

Aquele momento me alegrava e trazia uma sensação agradável de liberdade. Uma fuga simples e morna que esquentava meu coração tão pobrezinho e sem grandes aventuras. Por isso, sonhar acordado me colocava em lugares que, muito possivelmente, nunca iria estar e ver de perto. Lugares, pessoas e coisas, muitas coisas…

Bom, a viagem era grande e a imaginação maior ainda, porque não aproveitar o momento e criar uma realidade mais agradável?! Meu mundo paralelo!

De olhos fechados a viagem ia se transformando em um lance indescritível e suave, não se parecia em nada com o que meus olhos viam enquanto abertos.

Sentia brisas das montanhas, o sol da praia direto de uma areia branquinha e quentinha, alguém sentava ao meu lado e imaginava uma boa companhia que esbarrara em mim, céu, mar e todo o luxo que nunca vira.

Me enganar para sobreviver, para poder ir adiante, como uma meta a ser atingida.

A imaginação sempre foi o meu forte e no “busão” ainda mais, porque pra encarar aquela realidade diária tinha que ter estômago, ser desencanado e inventivo.

Lembro ter aberto os olhos por segundos e ver um outdoor, daqueles que já não há nas cidades, grande e com uma imagem de uma mulher em frente ao mar. E lá fui eu, pura imaginação, sentir os solavancos de um avião nas alturas rumo a um país maravilho, tipo Montenegro, ao encontro de alguém que me esperava e gostava da minha presença. No meio de tanta frieza e correria, gostava de imaginar alguém que fosse feliz e quisesse compartilhar esta alegria comigo.

Assim levei meu cotidiano cinza e apagado. Colorindo e imprimindo leveza e esperança.

O mundo atual não está melhor do que naquela época, muito pelo contrário. Creio realmente que as pessoas se aproximaram muito mais nas questões de informações para entender e saber superficialmente umas das outras, mas se afastaram ainda mais nas questões do bem querer.

Hoje, com este aumento da violência e da frieza dos relacionamentos, ainda desejo ir para Montenegro. Não mais pela falta de companhia, mais pelo afastamento de um país tropical, frio por natureza, muito capitalista e corrupto.

Minha imaginação ainda está a pleno vapor no aguardo de novas possibilidades! E a sua?!

 

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