Do ângulo em que me encontro podia ver, do outro lado da rua, o bar do Sr. Joelmir. Um senhor de cabeça branca e reconhecido como o informante da minha vila, sabia de tudo e mais um pouco. Nada escapava do Xerife, como era conhecido na região. Sempre à postos, entre um trago e outro, analisava diariamente a vizinhança atentamente e com o olhar crítico que lhe era peculiar, para identificar todos os detalhes, como se fora pago pela tarefa.
Havia no ar um sentimento de despedida, de inconformidade, com jeitinho de quem já perdeu! Perder, as vezes, é bom… Coloca para refletir e rever os caminhos. Perca com parcimônia [rsrs]!!!
Atrás da fumaça do cigarrinho que ele mesmo enrolara, observava, logo a sua frente, a Dona Maria.
Mulher velha que dói! Quando eu era criança ela já era velha! Todavia, o tempo não passava para ela. Estava em uma velhice que não avançava!!! Uma imortal que parou no tempo!!! Sua velhice era sempre a mesma, fazia a mesma coisa, reclamava das mesmas dores, tinha os mesmos problemas… desde sempre!
Lá, do outro lado da praça via outro velho: Seu Joca! Ele e suas pombas! Todo dia ele estava lá, de farelinho em farelinho, assim, como não quisesse mais nada da vida. Ele mantinha seus amigos por perto! Uma quantidade absurda de pombas o cercava eufóricas, como se todas fossem dele e ele as controlasse!
Seu Joelmir, que quase não reclamava da vida, tinha apenas uma reclamação certa e constante, algo que o perseguia há um bom tempo, uma dor de dente crônica, que parecia ter a mesma idade da Dona Maria, mas que ele nunca tratava. Creio que sem aquela dor, ele sumiria, se tornaria homem sem valor, sem experiência, um igual a todos, por isso ele a mantinha e fazia questão de avisar a quem por perto estivesse:

– Esta fumaça quente entre meus dentes estragados, ô alívio danado!!! Um prazer que não busco cura, dorzinha de dente afiada. Tudo bem, esta morre todas as manhãs, com cachaça e o calor da fumaça do meu cigarrinho!!!
Aquela praça exalava dor, cada um com a sua. Éramos todos velhos, endurecidos e cheios de males, vírus e doenças, mas nada que comprometesse e gerasse pânico, apenas dores humanas do dia a dia.

Dor que não tem cura e que não procuro mais! Deixei de ser ingênuo e infantil.
Hoje lembrei de um amigo que gritava aos quatro cantos do mundo sobre a tal da cura. Ela nunca chegou, nem bateu na trave e, assim, se foi… subiu!

Enterrado sem grandes lisonjarias! Morreu assim, rapidinho! Ele era o mais novo entre os velhos, causou um certo furor entre a velharada da vila. Mas, a coisa passou com o tempo, ele apenas morrera dos motivos de sempre e nada mais! Passou do ponto, assim como todos e , cansado, se entregou primeiro.
Tinha doença crônica e irreversível, daquelas que se estuda durante anos, mas que não se sabe de nada, ou dizem que não sabem de nada! Acho até que teriam vergonha se soubessem. Descobrir a cura, dá a impressão de burro, de quem traz prejuízo pros poderosos e donos do mundo! Ok!!! Tudo bem, eu compreendo, somos todos paus mandados! Eu os perdôo pela luta e entrega de meu amigo. Todos morreremos, não é mesmo?!
Trabalhei anos e anos, sempre com o objetivo de solucionar, ter um final feliz, com prazo de terminar e resolver!!! Igual a todo mundo! Imagina o tamanho do problema se não resolvesse? Era rua, sinal de incompetência!!!
É! Trabalhinho bom é de cientista, não tem prazo de resolver e achar a solução. Esses têm a vida ganha, é só ir tapeando os boboca! Arrumando um jeitinho de manter “os caboclo” vivos!!!
Cientista é igual aquele povo que usa preto, de roupinha de couro e chicotinho na mão: Não mata, mas se diverte com a dor dos fracos e entregues!!!

Me seguro como posso e vou vivendo daqui da minha jovem velhice, torcendo para que um dia eu chegue a altura da velha velhice da Dona Maria, tão forte quanto ela… aparentando eternidade, mesmo que assim, sem grandes significados e descobertas.

Que seja leve a minha dor.

 

Obs: Um conto antigo, reeditado e com a mesma esperança.

 

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