Estava no trânsito um dia destes sob um sol que arregaçava tudo abaixo dele, como se tivesse nascido pra brilhar e soubesse disso!

Apesar do cansaço e o calor de derrubar pombo dos fios do poste, não sei porque cargas d’água estava bastante feliz e desencanado.

Cantarolava distraído uma canção do rádio, musiquinha destas simplinhas que a gente canta e nem percebe muito na letra. Era um dia promissor em todos os sentidos, mais pelo meu excesso de alegria sem motivo aparente do que por algo específico.

Tudo lindo e perfeito, quando uma Brasília amarela, daquelas bem velhas e cheias de massa, foi embicando pra minha fila, pro meu lado e se enfiou na minha frente. O motorista nem percebeu que, na real, eu dei aquela brecadinha básica para facilitar a sua manobra. Como sempre, quando faço estas gentilezas em que não há um reconhecimento por parte do beneficiado, agradeço por ele e respondo “disponha”, num monólogo gentil, amigável e solitário.

Porém, o que me chamou a atenção naquele carrinho dos Mamonas Assassinas, não foi nada disso, mas o adesivo logo atrás, para ser exato, no vidro traseiro. Lá, tinha o tal adesivo todo descascado, envelhecido e muito conhecido por todos. Porém, como estava mesmo bem detonado, apenas podia-se ler: É FIEL!

Bom, deduzi que o cidadão deveria ser algum religioso temente a Deus, sendo assim, seu adesivo se referia ao Todo Poderoso, com certeza.

Mas, se uma pessoa que estivesse chegando agora em nosso país, completamente desavisada, saberia responder o que era o tal do “É FIEL”?!

Ali rolou uma profunda meditação sobre ser fiel, o que é fiel, quem é fiel e o porquê?

Bom, a palavra mais forte que me veio à mente, foi: Amor!!! Ser, ter e querer preservar com todas as forças o mais próximo possível este Amor. Isto é o que mantém as pessoas juntas por tempos inacreditáveis! Creio.

Todos somos e queremos ser fiéis enquanto houver Amor, afinal, se realmente existe este sentimento, não há escape aqui e ali, certo? Pois é… não sei!

Se não há Amor o relacionamento é inexistente? Depende do relacionamento, porque se houver Tesão, pode não ser duradouro, mas rola um bom relacionamento também. As vezes vai até bem longe, né não?

No mundo dos fiéis, além dos relacionamentos amorosos, rolam também os religiosos, os de amizade e os de ideais, por que não? Até no esporte tem este sentimento. Impossível ser Palmeiras e Corinthians ao mesmo tempo. Vai dizer?

É FIEL, gritava o vidro traseiro da Brasília velha. Eu sabia que a palavra Deus havia caído e, com certeza, não era um adesivo que fora colado assim, porque no lugar de Deus ficou um vazio, um buraco no vidro, o que deixava a frase incompleta e mal diagramada.

Será que era uma mensagem divina, um alerta sobre a minha fé? Será que estava sendo leviano, herege e descrente demais e o Poderoso me mandara um recado através daquele adesivo?

Bateu um vazio. Estaria sendo cobrado pelo Divino?!

Peralá!!! Também podia ser uma advertência de Deus aos seres humanos, uma crítica! Talvez, Ele estivesse querendo nos dizer para pararmos com este negócio de inverter as responsabilidades. Nos alertava sobre a nossa condição humana e que este papo de empurrar a fidelidade para ele era algo inadmissível! Ser fiel é coisa para humanos e não para deuses.

Podia ser também um lembrete e, por isso, Ele arrancou seu Santo Nome e deixou assim, aberto para outro se encaixar no lugar. Então, cada pessoa que lesse o adesivo deveria colocar o seu próprio nome no início da frase. Tornando aquele adesivo um grande divulgador da fé humana. Uma reafirmação pessoal e íntima da fé.

Por outro lado, o calor nos últimos tempos estava esturricante! Num calor destes, não há como ignorar a possibilidade de que o adesivo possa ter secado e caído, não é mesmo?! Porém, podia ser outro recado divino aí. Quem sabe Deus estivesse me mostrando que o mundo está passando por uma mudança climática severa e a solução de todos os servos atentos de Deus era a fuga para lugares onde a abundância de recursos fosse garantida?!

– Puta viagem! Desdenhei.

Achei profundo e radical aquela idéia, mas um tanto quanto absurda!!! Foi então que comecei a rir de tamanha estupidez. Cria até mesmo que o calor estivesse fazendo efeito sobre minha mente fervilhante.

Foi nesta viagem alucinante que em um movimento brusco, alguém mais a frente da Brasília, talvez um ou dois carros adiante, freou violentamente e todos que o seguiam, incapazes de pararem, bateram uns nos outros.

Eu, que estava atento a Brasília o tempo inteiro, naquela maluquice sem fim do adesivo, percebi os carros freando e batendo, por isso, consegui parar o meu rapidamente, evitando, desta maneira, a colisão.

Eis que, para a minha surpresa, como se aquela viagem toda de que se Deus estava querendo ou não me dar um recado, mais algumas letras do velho adesivo se desprenderam, o “E” e o “L” e, assim, podia-se ler claramente uma nova frase que surgia no lugar. Agora o recado era outro, pois lá estava: É FI.

Me livrara de uma batida considerável e tudo o que conseguia pensar era que o novo recado estava lá: É FI. Para mim estava bem claro o “FI” era de ” É Filho”.

Lembrei de um amigo que sempre falava assim comigo, contraindo as palavras: Se liga Fi, Prestenção Fi!

Ainda com o coração acelerado, desviei meu carro daquele corredor de carros batidos, cheio de pensamentos e agradecimentos ao invisível.

Era um engavetamento surpreendente, assim… do nada! E eu, aparentemente, recebera aquilo que chamam de livramento, ou fora mera coincidência?

De qualquer forma, nada podia ser provado e como diz a música Esotérico, de Gilberto Gil:

“Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais”

Resolvi crer, mesmo, que fora uma bela viagem na maionese.

Acabei rindo daquilo tudo e segui adiante, lembrando das sábias palavras do meu amigo:

– Prestenção Fi!

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