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Encontrei um tempo atrás uma figura intrigante, era um velho feio e detonado da porra.

Suas roupas jeans o faziam parecer um personagem coadjuvante dos filmes do Kung Fu, anos 70, naquelas eternas andanças. Se você não conhece, então se vira aí e procure saber.

Sua presença era desagradável, tanto pela aparência quanto pelo cheiro forte de cigarro. Tinha também um desprezo sincero pela humanidade que carregava em sua alma e arrastava para as palavras. Aquilo era ruim e incomodava.

Não era a minha vontade conhecê-lo, mas sabe como são estes encontros malditos, não é mesmo? Tá no inferno?! Abraça o capeta.

Puxou assunto desinteressante, enquanto admirava as ancas da morena em suas roupas propícias para o calor daquele dia.

Reclamou da vida enquanto coçava o rosto vermelho, cheio de marcas, manchas e uma barba desgrenhada.

Estava há mais de 2 horas na espera naquele hospital público na esperança de ser atendido, mas em meu íntimo sabia que a coisa iria além, muito além. Talvez, por isso, dei corda pro infeliz fedorento. O que acabou em assunto sem fim, mas pensando bem, tinha todo o tempo do mundo.

Em uma oportunidade, lá pelas tantas da noite, acabamos conseguindo um cantinho pra sentar, o que tornou nossa desgraça um pouco menos sofrida, mas não mais prazerosa.

Um pouco mais “íntimos”, ele iniciou aquela que era o fim de nossas conversa:

– Tá ruim a coisa! Num vamo saí daqui tão rápido. Seu sotaque de homem humilde do interior do sertão dos mais “simprão”, era despretensioso, o que me fez acreditar que ele não era da região, mas não conseguia entender porque me despertava algo ruim e fazia com que me mantivesse em alerta. Cautela é sempre o melhor caminho.

– Pois é! Vai longe mesmo. Respondi por educação, mas com a eterna vontade de, como bom paulista, me afastar dele, mas acabei ficando por ali mesmo.

– Tá isperando arguém, ou tá no aguardo pra falá cum Dotô?

– Sim! Estou um pouco esquisito hoje, como estava aqui por perto resolvi falar com o médico.

– Insquisitu?! Aquela gorda ali é qui tá anssim. Óia lá! Apontou com seus modos simplórios a senhora obesa que tossia sem parar.

Fiquei espantado com a falta de modos do homenzinho das pedras. Porém, continuei com minha pose educada, mas ainda me mantendo distante e pouco revelador, até pra não criar intimidade. Como disse, sou paulistano, nascido e criado na terra da poeira, porque garoa que é bom…tá faltando, e fazer amigos do nada não é o meu forte.

– Ficou chatiadu cum a brincadera cum a gorda?! Fique não, moço. Ela há di ficá bem. Tá errada de tá anssim, tão balofa, mai vai miorá. U ruim é qui feiz de um tudo pra dá errado. Esculachô dimais. Disse com sua risada catarrenta.

– Pelo visto sua vida é uma beleza, porque gosta de julgar à vontade a pobre senhora. Nunca fez nada que tivesse dado errado?! Respondi meio irritado com o caipira arrogante.

A cena a seguir ficaria bem em algum filme de terror e, assim como nestes filmes, o porquê daquilo tudo foi um enigma, uma surpresa desagradável.

Assustadoramente, percebi que seu sotaque mudara, como se uma outra pessoa estivesse no seu lugar, ali, ao meu lado. Numa transformação hollywodiana, disse:

– Se for falar do que já deu errado, tenho uma lista gigante aqui comigo. Posso até te mandar para o seu conhecimento, mas veja lá espertão, não me peça para mandar pelo Correio, porque vai me sair caro! Me manda seu e-mail que a gente conversa, mas não me venha com aquele papinho de que não leu tudo, ou que não vai querer discutir o assunto, sem chance pra você! Vamos debater cada tópico e cada detalhe desta bagaça, juntos! Uma reunião maçante, cheia de fumaça, whisky, cerveja, mulheres e rock’n roll. Só assim pra se aprofundar na minha história, porque de cabeça limpa e no seco… não rola! Você não vai aguentar. Quer saber das minhas fraquezas e pisadas na bola, mas quer sair bonitinho e engomadinho?! Esquece! Vai ser dia de visitar o capeta, lembrar dos infernos e chamuscar o bigode…Você vai amarelar!!! E deu uma risada bem estranha, com o bafo gélido de sabe-se-lá-oque!

Sua fisionomia, apesar de ainda estar bem feia, tinha mudado razoavelmente, como se tivera secado… ou secando. Naquela sua última fala, que despejara sobre mim quase em único fôlego, como se vomitasse suas ofensas sem perdão ou compaixão, fora reveladora e arrepiante. Sua transformação surpreendente, que não causara estranhamento em mais ninguém, apenas eu reparara.

O momento estranho e desconfortável acabou assim, do nada.

Ele levantou de seu assento, agora parecendo bem maior do que quando estávamos em pé, no início daquela conversa.

Suas roupas estavam bem mais escurecidas e mais largas do que as que estava usando durante todo aquele tempo.

Se dirigiu para a porta que dava na area de atendimento médico, onde apenas doentes e um acompanhante podiam entrar. Parou diante dela e, como uma coreografia de alguma cena ensaiada de teatro, saiu desta porta no mesmo momento e em pleno desespero, uma das acompanhantes de alguém que estava bem mal, um doente que entrara ali às pressas, naquele meu longo período de espera.

A senhora de olhos vermelhos e choro profundo, procurava um homem naquela sala de espera, provavelmente um parente próximo, que igualmente recebera a triste notícia de recente falecimento.

Aquele outro sujeito, o até então caipira “marvado” e esquisito que estava ali comigo, puxou de alguma dimensão invisível sua foice, finalizando sua transformação na famosa figura do Ceifador, o Senhor da Morte, e entrou através da porta fechada de onde saiu aquela mulher chorosa que, abraçada ao seu marido, apenas lamentava-se sem nem imaginar a péssima experiência que eu acabara de passar também.

Lembro que, antes de desaparecer completamente, me acenou, dizendo:

– Te vejo no fim.

Isso foi ruim… beeeeem ruim!!!

O Senhor do fim estava a trabalho e eu de saída.

Fosse o que fosse, preferia estar entre os meus e simplificar minha história de doente, dando outros rumos para aquela noite e para, simplesmente, tomar um xaropinho caseiro qualquer em casa. Pelo menos estava distante do bafo gélido do feiosão.

Minha cota de coisas esquisitas estava no limite.

Parti rápido, arrepiado, mas no cantinho agradável do meu lar… um bom fim.

 

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