– E se tudo der errado? O que eu faço?!  Me perguntou em um tom que beirava o desespero. Este era o meu frágil amigo, uma figura esquálida, sem brilho e desanimada, que parado diante de mim parecia buscar a resposta ideal para as suas milhares de dúvidas.

O conhecia há tanto tempo que já não poderia dizer o momento exato em que nos encontramos pela primeira vez. Talvez, por isso, já não me abalava com suas inquietações e medos.

– Pare com isso Julio, não seja frouxo! Sua negatividade me irrita!

– Mas, Nestor, se não der certo?! Não sei se quero passar por isso!

– Cale-se, Julio! Hoje iremos até aquele maldito lugar e iremos entrar. Pare de ser covarde!

Aquela insegurança era uma constante em sua vida, mesmo quando tentava disfarçar para não aparentar sua covardia, eu podia notar facilmente em cada passo, em cada respiração e até mesmo quando ele não me dizia nada. Julio era, mesmo, um cara fraco e irritante.

Íamos em direção ao nosso “encontro”. Lá, havia tudo o que pessoas como nós desejava, por isso, acreditávamos que estaríamos e seríamos homens muito melhores, desde que tudo desse certo e conseguíssemos nos manter firmes.

A ideia original era a de que ficaríamos juntos, mas no fundo, mesmo que sem deixar isto claro, nem mesmo para mim, sabia das fraquezas e a clara incapacidade do Júlio em conseguir sucesso. Até poderia me condenar por isso, mas meu instinto egoísta e determinado não me permitia ser diferente. Se tivesse que passar sozinho, eu o faria com certeza.

Eu tinha confiança e firmeza, como sempre, só não sabia se estava fazendo a coisa do jeito certo. De qualquer forma, estava cansado daquilo tudo. Anos e anos vivendo na beira da loucura, fome e uma pressão constante vinda de todos os lados. A oportunidade era única, alguém iria acabar na minha frente, mesmo este monte de gente que nunca tomava a iniciativa pra nada. Uma “fita” fácil demais!

Pensava no quanto queria sair daquela situação e a cada passo em direção ao meu objetivo, mesmo sob a constante reclamação do meu amigo, tinha certeza do que deveria ser feito.

– Rápido, surpreendente e eficiente. Comecei a repetir em voz baixa para mim mesmo, como se quisesse encobrir a voz do Julio e, ao mesmo tempo, me encher de confiança, pois estava a poucos passos da coisa mais inesperada e crucial que já havia feito em toda a minha vida.

– Nestor, esta é a única maneira?

– Se é ou não, Julio, não há como voltar atrás.

– Desculpe, Nestor. Eu não posso continuar!

Não me surpreendi ao ver o Julio parar e desviar o caminho. Este era o Julio de sempre, um bosta!

Estava tão perto do meu destino, das pessoas… meus alvos! Já podia ouvir suas risadas e conversas! Naquele momento eu não estava de brincadeira e iria até o fim.

Só eu sabia a adrenalina e o medo que percorria meu corpo, algo tão forte e inexplicável, mas que não me detinham.

Tive um rápido vislumbre de tudo o que havia vivido até ali, uma retrospectiva. Um sinal óbvio do medo de mudança, da possibilidade de vivenciar uma história desconhecida. Algo novo e provavelmente bom.

Lamentei por sempre ter sido um Zé Ninguém e por todas as dificuldades que passara na vida, mas naquele momento não podia ser diferente, não pra mim! Determinação!

Se disser que não tinha limites e medos congelantes, estaria mentido descaradamente, pois havia algo dentro de mim que tremia e se desesperava. Uma tristeza insuportável, daquelas de chorar, tremer e se descabelar, mas eu me controlava. Aprendi desde pequeno que as emoções exageradas não abriam portas, só as fechavam. Porém, aquela porta logo ali iria explodir, pra mim!

As pessoas começaram a me perceber e notar a minha presença, então, se viravam em minha direção.

– Caminho sem volta, agora já era a chance de desistir. Ou vai ou vai… e é isso aí! Cochichei pra mim mesmo.

Um dos que parecia o mais forte de todos tomou a frente, como se entendesse minha aproximação determinada e se colocou mais atento do que os outros.

Não dei espaço para que ele me detesse, coloquei a mão dentro do meu paletó e puxei o que tinha.

E como um baque, um soco determinado ele teve a surpresa do dia:

Meu currículo, com foto 3×4 e tudo mais que tinha direito!

Foi assim que arrumei meu primeiro ‘trampo” e mudei o mundo. O meu mundo… “zerou”!

 

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