Tudo o que se desejara era um dia calmo e sem o desespero diário e alucinado de todos os outros, mas não era bem isso que “Havia” reservado para aquele pobre coitado… não mesmo!

O início daquele em especial foi um verdadeiro desastre. Alguém tocara sua campanhia às 8h da manhã, o que para ele seria algo equivalente às 8h da madrugada, já que sempre ia se deitar depois das 2h.

Atendeu o interfone e era um funcionário de uma empresa de instalação de internet que, com a voz quase gemida e o tom muito semelhante a de um murmúrio de alguma alma sofrida, o requisitava.

Algo lhe dissera para não atender, pois logo que ouvira a voz do sofrido instalador percebera que a vibração encardida e a aura carregada de amargura e pesar exigindo sua presença, não lhe traria boa coisa!

Existem, de fato, pessoas que mesmo em um dia ruim sabem disfarçar esta angústia… definitivamente não era o caso do ser despreparado do outro lado do aparelho! O mau humor e o “peso astral” conseguiam ultrapassar as fiações do interfone e provocar uma estranha mistura de enjôo e aflição. Era complicado imaginar que teria que iniciar seu dia com tão desagradável presença em seu lar. Porém, tinha a plena convicção que ele mesmo invocara aquela alma em sua residência no exato momento em que contratara os serviços de internet. Logo, teria que suportar aquele momento embaraçoso.

– Um minutinho, por favor! Disse contrariado, já que tinha grande dificuldade em se comunicar pelas manhãs.

Disse aquelas palavras no lugar de: – Suma! Desapareça daqui, ser nefasto!!! Vá de retro, demônio horripilante!! Porque seu espírito, ainda preso na cama, se sentia inconformado com a ideia do corpo físico estar lutando pra ficar de pé e, pior, conversar e tentar ser simpático onde não cabia este tipo de atitude! O espírito gritava palavrões, esbravejava e esmurrava paredes, mas seu corpo insistia em ser educado e solícito.

Desligou o interfone e se arrastou até o mancebo desconfiado, que até tentou segurar suas roupas as enroscando forte em um de seus braços, como se dissesse cauteloso: – Tem certeza?! Não é melhor voltar pra cama e deixar esta tal de internet para um horário mais humano?! Você realmente precisa disto para viver?! Mas, ele ignorava seu fiel amigo íntimo e sempre disposto a carregar suas roupas e objetos, não lhe dando ouvidos. Puxou mais forte suas roupas do dia anterior, ainda com os cheiros de outras aventuras e emoções, arrancando de forma ríspida e determinada suas vestes, para atender a outra alma igualmente sofrida que o aguardava do lado de fora de sua casa.

Ele queria acreditar que tudo aquilo era necessário e bom para sua vida, algo que traria um brilho maior e uma luz especial em seu viver. Vestiu seus trajes amassados e o seu tênis mais largo, para que desta maneira não perdesse tempo e fosse mais rápido ao seu forçado encontro.

– É isso! Afirmou para si mesmo, antes de se ver no espelho que o revelava de corpo inteiro: amassado, descabelado e com um provável bafo terrível de uma noite pesada de sono, logo após um dia inteiro de trabalho e silêncio!!!

– Não! Ninguém merece estar na presença de um malacabado destes e assim… tão desleixado!!! Mesmo não sendo uma visita tinha que dar, pelo menos, uma escovada no cabelo e nos dentes, pois seria de bom tom e muito bem vindo, com certeza!!! Mesmo porque, cria a possibilidade de voltar para a cama já havia se tornado apenas um desejo distante! Olhou triste para sua cama quentinha e até pode se ver ali, bem confortável e aconchegado!!! Com um sentimento de tristeza em algum lugar de sua alma desesperançada foi até o banheiro transformar aquela forma decadente em “Mun ha” o ser eterno!!!

Escovou, penteou e lavou sem muito cuidado e o amor de sempre, já que sua visita não merecia este prestígio todo. No fundo ele tinha certeza, até pelo tom derrotado do rapaz que a reciprocidade era a mesma.

Cheio de coragem e determinação passou pelo interfone rumo à porta de saída na esperança de um futuro melhor, quando o aparelho tocou mais uma vez.

Algo dentro dele arrepiou. Um alarme, um sexto sentido… uma premonição! Era o ser sofrido mais uma vez e tinha algo de ruim para lhe transmitir, tal qual uma gripe, um vírus e que provavelmente estragaria seu dia inteiro. Nada poderia mudar a lembrança daquele dia novamente, nem se ele quisesse… não havia volta!!! Era atender e se arrepender para sempre.

– Pois não?! Disse tendo a certeza de que se arrependeria.

– Aqui é o rapaz da instalação. O senhor me disse um minuto e até agora… nada!!! Pode ser ou está difícil?!

Ele emudeceu e como um filme de sua vida em sua cabeça, tudo o que vivera desde o momento em que acordara até ali foi revivido. Imaginou que muito provavelmente o rapaz da instalação nem sequer pensou que ele não era bem vindo em sua casa. Que recebê-lo naquela hora, mais precisamente de manhã, era o ato mais corajoso e despretensioso que ele já fizera por alguém em toda a sua vida. Que, nem mesmo, se o prédio ao lado estivesse em chamas ele levantaria para tentar ser útil ao triste flagelo de muitas vidas. Imaginava chocado que o rapaz também não teria como saber que ele NUNCA se levantava naquele horário, sob pretexto algum e por ninguém. Pensava abismado que, se ele soubesse da possibilidade daquela segunda ligação e da hipótese de haver um monstro mau humorado em sua porta, nem sequer cogitaria em se levantar da cama, mesmo com o risco de jamais conseguir uma instalação da coisa mais importante para a sua carreira profissional: a internet.

Talvez, o rapaz poderia vir a ter um pouco mais de paciência e compaixão e tentaria ser mais querido e profissional se soubesse de quantos erros tinha naquele dia, como um jogo de 7 erros, na vida do estarrecido moribundo e necessitado de uns míseros megas de internet e assim, não ousaria jamais, nem por um segundo, fazer aquela maldita segunda ligação desaforada.

Olhou para si mesmo, tentou buscar alguma palavra dócil e disse:

– Você queria que eu descesse até aí pelado?!!!

Imaginou que o rapaz teria um pouco de bom senso e dissesse algo que contornasse aquela situação ruim, mas no lugar daquele rapaz esperançoso e repleto de luz em seu olhar, que no dia de sua entrevista de emprego na empresa que hoje lhe parecia o causador do calvário de nosso amado Jesus, um monstro cansado, enfurecido e amante do capeta, respondeu:

– O senhor me disse um minuto!!! Por acaso quer que eu vá embora?!!!

Ele também poderia ter ignorado seus sentimentos mais repugnantes e odiosos. Deveria ter tentado uma palavra amiga, um sentimento de amor e compaixão humanitária junto ao sofrimento do próximo, que diante da luta do dia a dia sofria de alguma angustia, exploração e desencanto. Poderia ter sorrido daquele desencontro divino, da falta de compreensão e das desigualdades de um planeta tão cheio de armadilhas. Deveria ter procurado no âmago do seu ser uma Madre Teresa de Calcutá ou um Gandhi, que com sua nobreza sem fim, sempre lutou sem jamais entrar em conflito direto e nem se deixar envolver pelos atos violentos. Também poderia ter se espelhado nos mestres de todas as épocas que com graça e elegância sempre se diferenciaram dos seres rasteiros ao erguerem de muitas maneiras a bandeira da paz, com paciência e cheios de amor ao próximo. Imitar seus atos nobres ao nunca abaixar o nível de seus sentimentos ao esclarecer seus pontos de vista, mostrando o caminho da luz e da boa convivência.

Tudo de mais lindo e maravilhoso poderia ter acontecido naquele momento, até o instante em que conseguiu mexer seus lábios e grunhir:

– Quer ir embora?! Então vá… e que se foda!!!

Desligou, retirou a roupa e voltou para onde nunca deveria ter saído… sua caminha ainda quente onde seu espírito convícto se mantivera o tempo todo.

 

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