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– Mas o Inferno também é aqui! Declarou com uma certeza absoluta, daquelas que só os muito fanáticos religiosos ou os muito bêbados possuem.

Era um rapaz jovem, com seus vinte e todos anos, no máximo uns trinta… não mais do que isto.

Tinha uma fisionomia de desespero, de cansaço, agonia e um olhar penetrante, daquele bem sofrido, de quem já vivera muitas coisas pelas ruas.

Poderia ter feito como todo mundo, me desviado, resmungado e partido sem esticar o assunto, mas estava em paz, de barriga cheia e relaxando em uma bela sombra no Ibirapuera. Não poderia fugir daquele instante tão prazeroso, afinal, tinha certeza que se tratava apenas de mais uma das várias figuras exóticas que por ali passavam e que rapidamente me veria livre dele.

Confesso que, nos primeiros minutos, me arrependi por não ter me levantado, ou reclamado de sua presença e expulsado do meu sossego, de meus raros minutos de tranquilidade. Porém, depois que me acostumei com sua fisionomia desagradável e sua invasão inesperada, até que achei bem interessante sua passagem por ali.

Sua visita, em minha história, durou uns quinze minutos e depois de sua partida, me fez  pensar bastante sobre a vida, ou melhor, sobre a sobrevivência.

Seu nome era Euzébio, mas se apresentava como Zé, algo que achei engraçado apesar de não ter comentado, já que acreditava que este apelido se dava apenas aos Josés!!!

Zé da Carroça, como me disse ser conhecido pela região.

– Carrego o que você não enxerga, o que ninguém deseja e assim como o que carrego, sou igualmente invisível!

Disse se curvando, como se fosse um Lord, ou um artista em final de espetáculo.

– Conheço esta cidade e os vários estilos de pessoas que nela caminha, corre, escorrega, desliza… rasteja!!! Falava, enquanto apontava as muitas pessoas que por ali passavam distraídas, com suas bicicletas, skates e fazendo seus coopers, até terminar em si mesmo, quando se referiu ao “rasteja”.

– Diz a canção que: Todos são iguais na dor, mas também somos muito parecidos na alegria!!! Parou, abriu seu casaco sofrido e monocromático, assim como todo o resto de seu visual, não por desejar discrição, mas muito mais pelo tempo de uso… e puxou uma barrinha de cereal. Algo que me surpreendeu, já que estas barrinhas são bem mais o alvo de outro público, tanto por não ser lá um alimento que satisfaça uma barriga faminta, como o abusivo preço praticado nos mercados, que para aquele situação me pareceu, mesmo, um produto “esnobe”.

Apontou o cereal em minha direção, como se fosse seu dedo indicador e continuou seu discurso:

– Notei que você deve ser um daqueles caras que vêm raramente para cá e que, na procura de um momento de paz, de isolamento e que, provavelmente, deve estar fugindo de sua realidade… de seus problemas!!!

Balancei a cabeça com um leve sorriso no rosto, pois aquilo era tão óbvio, quanto ridículo, afinal, quem não estava ali na procura de paz e isolamento?!

– Ok! Então vou te dar um toque, algo  que me pediram para te falar – Fez uma rápida pausa, concentrou-se com seus olhos bem fechados, entortou os lábios, desfigurou a cara indicando que estava recebendo uma mensagem do além e depois, continuou – Esta será sua última dor. A última e derradeira dor sobre o assunto que o trouxe até aqui!

– Certo! Pensei comigo – Esta não é uma frase muito reveladora.

Ele abriu seus olhos, deu uma mordida gigante em sua barrinha de cereais e ficou me observando cheio de si, enquanto podia ver o cereal rodando em sua língua, sendo triturado em seus dentes.

Ali estávamos nós dois, eu dentro de um silêncio constrangedor e ele com seu cereal mastigado de boca aberta, como se fosse um maluco dos filmes de terror… um possuído de verdades ocultas.

Como diz o dito popular e aquele momento parecia a atitude ideal: melhor não contrariar.

Não demonstrei qualquer reação, apenas fiquei ali, com um sorriso sem graça! Esperando alguma conclusão daquilo tudo, mas rapidamente, percebi que não aconteceria, porque ele continuava diante de mim, com as mãos na cintura saboreando sua interminável barra de cereal, com 5 vitaminas.

Levantei os ombros, abri as mão no ar e fiz cara de: Pode crer! Afinal, não tinha nada a declarar sobre sua “visão”.

Ele deu uma piscada, provavelmente imaginando o quanto eu o compreendia e assim como chegou foi embora… decidido, “alimentado” e dono de uma verdade misteriosa!

Se eu disser que não liguei para a mensagem do Zé das Carroças estaria mentindo, também não vou dizer que não havia uma dor, pois havia… e daquelas que atrapalha e desanima.

Enfim… seja lá o que tenha acontecido ali, naquele momento, coincidência ou não… hoje estou mais leve!!! Uma dor pesada desapareceu… e creio que foi para sempre!

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