Em seu mundinho colorido, ela dançava, cantava e brincava cheia de entusiasmo.

Era um quarto delicado, pequeno e bem arrumado, cheio de brinquedos, bonecas e cores… muitas cores!

Em seu caderninho muitos desenhos e palavras sem fim. Cantadas, escritas e cheias de muita alegria – Uma alegria tão grande quanto os profissionais da escrita gostariam que seus cadernos também tivessem.

Rimas, caretas, sustos e o poder de transformar uma folha em branco em mágica!

Rita sabia rimar, o fazia com gosto e satisfação, mas nem imaginava que, a cada versinho, um mundo ao seu redor se fortalecia… o da imaginação – ou o do Amor, para os mais emotivos e românticos apaixonados pela vida.

Rita rimava e sorria, encantando as pessoas que liam seus versos simples e cheios de um poder que ela nem podia imaginar!

Um dia, ela estava brincando com uma de suas bonecas prediletas, quando um vento, daqueles que a gente não repara, mas que, provavelmente, guiados por alguma força invisível, invadiu seu quartinho delicado e jogou tudo pelos ares!

Ritinha, menina alegre e cheia de imaginação, não se abalou, apenas brincou e pulou feliz, aproveitando a ventania para girar junto.

Animada, ria contente e girava com o vento, sobre seu tapete macio e de mãos dadas com a Zuzu, sua boneca descabelada com vestido rodado, igualzinho aos que ela tanto adorava usar.

Gritava e girava imaginando mil coisas felizes e incríveis, as quais inevitavelmente viravam poesias, histórias cheias de Amor e aventura.

Feliz com sua boneca Zuzu, diminutivo de Zumira, nem sequer percebera que aquele vento inexplicável tinha um propósito maior, algo que não se compreende muito bem, mas que acontece quase todos os dias sem que possamos notar.

Foi assim que, uma de suas folhinhas se desprendeu do seu caderninho colorido e fugiu com o vento pela janela afora.

Era uma folha simples e caprichada com coraçõezinhos, que balançando no ar voou pela cidade, solta, livre e tranquila, assim… completamente envolvida pelo vento sapeca e cheio de intenções.

Naquela cidade cinza, cheia de compromissos, reuniões e apagada de emoções sublimes, quem poderia notar em algo tão bobinho como um papel colorido voando ao vento?

O papel flutuou magicamente pela cidade, sem rumo, sem preocupação e sem pressa, apenas ao bel-prazer da ventania, que a carregava com uma doçura e um carinho imperceptíveis.

Sobre as cabeças preocupadas, as mentes engessadas e os corações endurecidos dos que sempre têm objetivos e metas a atingir, sem tempo, sem arrependimentos nas relações, nos negócios e mais negócios, lá ia o papelzinho colorido.

Talvez, um ou outro menos entristecido podia sentir no ar aquela brisa diferente, naquela folhinha que dançava alegre pelo ar, assim como a menininha dançante de um quarto colorido, em um ponto qualquer do espaço/tempo, indiferente aos males e sofrimentos diários daquele lugar desmotivante.

A folhinha girou, rodopiou e balançou feliz por vários cantos, até entrar furtivamente pela janela acinzentada de um prédio igualmente cinza, daquela cidade enfumaçada.

Não pediu permissão, nem sequer quis saber se a dona daquele apartamento desejava recebê-la. Foi assim que, a folhinha vibrante, invadiu seu quarto escuro, apagado e sem cor – com a mesma intensidade de onde saíra – o vento poderoso ergueu o quarto como se uma mão invisível e gigantesca quisesse se fazer notar.

A entristecida mulher, que ali habitava, foi arrancada de sua dor profunda ao se ver envolvida pelo estranho, súbito redemoinho que se fizera presente e muito vivo.

Ainda com lágrimas nos olhos, das muitas dores que vivia naquele momento, conseguiu distinguir aquele pedacinho de papel bonitinho e colorido – tão diferente de seu ambiente sofrido e frio -, que pousara encantadoramente em suas mãos.

Ela parou seu choro de dias, enxugou os olhos, limpou as mãos em seu vestido de mulher séria e madura, mas que ainda despertava bastante interesse em muitos que a queriam em seus desejos secretos, só então pegou a folhinha… com carinho.

Examinou admirada por alguns minutos as letrinhas miúdas e caprichadas do papelzinho e se emocionou com as riminhas.

Eram palavras simples e recheadas de um Amor puro e verdadeiro.

Falava de coisas já tão esquecidas por ela, algo que vinha de uma época em que sua inocência de criança ainda acreditava naqueles sentimentos poderosos, delicados, amorosos e invisíveis.

Chorou ainda mais, mas desta vez era um choro diferente, uma emoção estranha, como se tivesse encontrado novamente um grande amigo do passado.

Um bem-querer surgiu dentro dela, uma esperança de que poderia continuar se fez presente e, sem saber o porquê, tirou aquelas roupas escuras, apagadas e vestiu outra mais alegre, de uma alegria há tanto esquecida, com um tipo de coloração que já não lembrava e abusava.

Olhou mais uma vez aquela cartinha milagrosa que escrevera em um passado distante, em uma época iluminada e empolgante, por ela mesma, quando seus sonhos eram mais brilhantes do que o sol e respirou fundo, como se trouxesse para si sua alma, sua alegria esquecida… aquela menininha pulante de volta.

Foi assim que, o vento animado presenciou rodopiante, ela guardar a cartinha colorida em sua bolsa, com um sorriso discreto e seguro, partir para a rua decidida a ser feliz… mais uma vez!

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