– As fotos não expressam o que vai em nossas mentes e almas! Ver esta foto daquilo que eu chamo de “Dia Perfeito!” só estraga a real perfeição daquele momento!

Foi com este pensamento que a velha Dorotéia encerrava seu dia, diante de um álbum de fotos envelhecido e empoeirado.

Ela observava fixamente uma foto em especial antes de ir deitar em sua cama, diga-se de passagem muito bem arrumada com colchas coloridas e travesseiros perfeitamente esticados em um quarto grande e bem organizado.

Aquela foto, que há tanto não via, se tratava de um dia que ela intitulava como: O Dia Perfeito!

Em primeiro plano seu falecido marido, o Pereira. Homem bom, elegante, carinhoso e admirador profundo de uma boa e barulhenta festa! Sua família privilegiada e gigantesca, fazia de cada encontro um fervoroso e agitado carnaval.

Sempre animados, se encontravam frequentemente. As muitas tias velhas e novas, tios bravos e garotões agitados, sobrinhas novas de boneca no colo e outras com o fogo da adolescência, sobrinhos jogando bola no meio do salão, primos vigorosos e outros obesos, primas invejosas e confidentes, cunhados discretos e atrapalhados, irmãos rabujentos e cúmplices e entre vários amigos de infância do elegante marido, um que, em especial, se destacava na multidão… Alfredo Topeira.

Para quem olhasse, superficialmente como costumava ser, aquela foto apenas revelava seu ex-marido muito feliz em primeiro plano, ela logo atrás, enroscada na cintura dele e uma multidão de pessoas à volta do casal animado. Todos em plena alegria e contentamento. Porém, não imaginaria que entre tantos olhares, aquele à quem ela correspondia com um sorriso aberto e entregue ao momento, tinha um significado mais do que especial!

– O Topeira! Exclamou juntamente com um suspiro desolado, a velhinha em suas lembranças.

Topeira, grande amigo de Pereira, jamais o desapontara ou desafiara para nada. Sempre juntos e companheiros, era o homem de confiança de seu marido. O que ele nunca suspeitou, era que na época, a jovem Dora, como a chamavam na infância, tinha uma atração especial pelo belo e fiel amigo de seu marido.

Na realidade, ela o conhecera antes mesmo de ter qualquer coisa com seu único companheiro. Um romance quase platônico, que começou com alguns olhares interessados e presentinhos inesperados.

O então jovem Topeira, que jamais desapontou seu melhor amigo, a quem considerava como a um irmão, nunca poderia imaginar que o Amor de sua vida, nunca seria sua de fato!

– Fotos! Estas captaram uma parcela tão pequena do que aquele dia representou de fato! Falou para si mesma, enquanto recordava as cores, os sentimentos e cheiros! Tudo muito mais intenso e envolvente!

– Como esta foto mascara a realidade! Agora, de olhos fechados, lembrava daquela festa e com as mãos na boca, deu seu sorriso envelhecido.

Ela deitou em sua cama, mas não a desfez, apenas ficou ali… sonhando.

Topeira abriu mão dela… apenas desistiu. Dizem que seu grande amigo revelou a ele o grande amor que sentia por ela… o que foi algo muito triste na época, pois ela era apaixonada por ele.

Naquele dia, daquela foto, ela ainda não era a mulher de Pereira e nem sequer havia algo entre eles. Aquela foto revelava um momento qualquer, onde todos se divertiam em uma dança, onde a jovem Dora tinha certeza que ficaria com o Amor de sua vida… o Topeira.

Ela, ao contrário de todos, inclusive o próprio Pereira, sabia que naquele dia o Topeira e ela estavam muito animados e atraídos um pelo outro. Ela lembrava de seu perfume a poucos centímetros de seu rosto. De sua boca, seu sorriso encantador e de seus lábios, quase tocando os dela. O toque suave das mãos de seu querido em seu rosto… das palavras fáceis e delicadas em seus ouvidos:

– Hoje, é um Dia Perfeito! Ele sussurrou baixinho.

Eles nunca concretizaram aquele Amor, aquele beijo ardente e verdadeiro nunca foi dado e nunca concluíram o que era certo e claro.

Um desvio, um momento não aproveitado e inexplicavelmente ela passou a ser de outra pessoa.

Aquela foto, para quem a recebia e a observava revelava um dia feliz e festivo, onde um casal de jovens se divertia entre os amigos, mas não mostrava a verdade. O Amor estava lá, o verdadeiro Amor inundava aquela foto… mas não do jeito que deveria ter sido.

Ela fechou os olhos, sentiu uma lágrima escorrer em seu rosto envelhecido e cansado e… dormiu.

 

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