Cornélius era homem trabalhador, sua dedicação e esforço para estar sempre no horário e de acordo com as rígidas normas da empresa multinacional em que trabalhava… eram notáveis!

Desde que entrara para a corporação jamais faltara ou chegara atrasado! Algo que já acontecia há mais de 30 anos de sua vida!

Em sua carreira exemplar, já foi trabalhar doente, cansado e infeliz, mas nunca faltara! Mal conhecia seus próprios filhos, quanto mais os amigos e colegas de trabalho em sua dedicação doentia!

Seu cargo era, também por isso, de alta confiança! Lá, naquela empresa, o que mais se perguntava pelos quatro cantos era quem poderia substituí-lo, quando chegasse sua aposentadoria?! Algo que já estava por acontecer… mais dia, menos dia!

Lógico que, esta questão preocupava mais os seus superiores e dirigentes, do que os que se encontravam em cargos logo abaixo ao dele! Na realidade, estes expressavam dor que não existia e preocupação que não tinham!

O que rolava, mesmo, entre os que cobiçavam seu lugar, era um falso desejo de que ele estivesse ali ainda por longos anos, mas na realidade apenas desejavam a caveira do “Velho Caxias”!

O tempo passou e em um belo dia, Cornélius não compareceu ao trabalho!

Houve até uma certa comoção e burburinho diante daquele fato raro! Onde estaria o esquálido, estranho e intragável Cornélius?

As pessoas responsáveis pela empresa até pensaram na possibilidade de procurá-lo, mas controlaram o impulso, pois ele tinha créditos suficientes para não ir ao trabalho sem dar satisfação.

Porém, para a surpresa geral, Cornélius não compareceu no dia seguinte também! E a dúvida era: teria o velho rabugento falecido?

Foi então que, diante da própria curiosidade do obeso Diretor Gomes e da pressão de quase toda a empresa, já que o apático Cornélius se fazia presente nas vidas das pessoas daquela empresa séria e rígida, com seus avisos de cortes, racionamentos, advertências e assuntos desagradáveis de todas as espécies, que acontecia diariamente, agora… simplesmente sumira!!!

Sr. Gomes, um pouco constrangido e ofegante, fez a ligação tão desejada por todos. Porém, o único número de telefone de contato, registrado na velha agenda amarelada do escritório do próprio Cornélius, já não estava correto e, como supunha o velho e bonachão Gomes, a ligação nem sequer fora completada, já que faltavam números, de tão antigo que eram aquelas anotações… as únicas que se referiam ao solitário Cornélios!

Passaram dias e mais dias e nada do velhote! Ele realmente desaparecera!

Não foi por falta de esforço em procurá-lo, mas nem mesmo seu endereço físico as pessoas daquela empresa tinham, já que o sumido não gostava de intimidades e amizades fora de seu ambiente de trabalho.

Policiais, detetives e conhecidos do Sr. Cornélius… nada e nem ninguém jamais encontrou o exemplar e dedicado funcionário! Assim, sem maiores detalhes… ele foi declarado desaparecido!

Alguns anos se passaram e o velhote, pouco amado, foi declarado, definitivamente, desaparecido!

As pessoas já tinham, até mesmo, esquecido de Cornélius, ele havia se tornado apenas um mito, uma lenda naquela imponente e fumegante empresa no meio de uma cidade louca e movimentada. Porém, em um belo dia, o Sr. Gomes, que admirava viajar por lugares exóticos à beira mar, teve um surpreendente encontro!

Viajava descontraído em uma cidade litorânea, isolada das grandes e perturbadas metrópoles onde costumava passar suas férias, quando em uma vila afastada e próxima ao mar,  despretensiosamente passou perto de uma cabana humilde. Lá, ele teve a sensação de reconhecer o morador que estava deitado em uma rede!

Primeiro, observou tentando não despertar a atenção do homem que descansava tranquilamente, mas diante de uma absoluta certeza, aproximou-se e… confirmou espantado: Sim! Era Cornélius!!!

Não, Cornélius nem sequer fez menção em fugir ou se esconder… apenas abriu um sorriso tranquilo e satisfeito!  Reconhecera o obeso “amigo” de outros tempos.

– Cornélius? É você? Perguntou Sr. Gomes estupefato!

– Cornélius?! Não meu amigo, já não uso este nome! Respondeu ainda sorridente – Retirei o Corno de meu nome, já que consegui criar uma vida de verdade!!! Agora atendo pelo nome de Aurélius.

– Como assim? Você desapareceu! Todos ficaram preocupados, queriam saber de você!!! Pensávamos que tinha morrido!!!

– Ora, mas eu morri!!! Ou melhor, me matei!!! Falava com um bom humor e uma tranquilidade admirável, algo que o Sr. Gomes reparou de imediato, afinal ele jamais vira o Cornélius sorrir enquanto trabalhava. Quase não podia ver naquele homem simples e animado, aquele velho sisudo e mal humorado, suas antigas maiores características do tempo de fábrica. Agora, ele havia, até mesmo, remoçado… milagrosamente!

O animado e leve “Aurélius” ergueu-se de sua confortável rede transbordante de almofadas e se aproximou do velho gorducho, explicando:

– Gomes, vou te explicar algo que meu pai me deixou bem claro em seu leito de morte. Colocou a mão no ombro do boquiaberto e espantado amigo, apontou um horizonte alaranjado de final de tarde, emoldurado por nuvens violetas e um mar com seu horizonte calmo e encantador, dizendo:

– Após anos de uma vida dedicada aos filhos e à empresa em que trabalhava, ele me confessou enfraquecido que, se pudesse mudar algo na vida dele, para ser mais feliz, simplesmente… teria trabalhado menos!

Admirou um pouco mais a paisagem e depois completou:

– Sabe?! Dei o máximo de mim naquela empresa… agora, estou dando o máximo que posso para mim mesmo! Não preciso de mais nada daquilo que vivia. Não sinto saudade, tristeza, mágoa e nem arrependimentos!!!

O Sr. Gomes apesar de surpreso, entendeu o ponto de vista de “Aurélius” e após um jantar delicioso na humilde casa e na presença de sua animada família, teve a impressão que aquela foi a escolha mais acertada do antigo Cornélius.

O Sr. Gomes, ao término de suas férias, voltou ao seu mundo de Diretor daquela empresa fria e cheia de intrigas… como sempre. Porém, teve a sensação de que, de alguma forma, alguém vivia de maneira constrangida e longe da felicidade, mas que com certeza absoluta… não era o empolgado “Aurélius”!

Anúncios