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* Leia o conto anterior!

Inevitavelmente, cruzei com Dona Carlota mais algumas vezes, afinal, aquela cidadezinha era um ovo.

Para dizer a verdade, nem tinha planos de parar por ali, mas um pneu furado, mais um hotelzinho com vagas e um cara cansado demais é igual a atitudes impensadas.

A velhinha, que não passava de um metro e vinte, tinha uma maldade proporcional a de um gigante. Como gostava de uma fofoca, mas não daquelas que todos praticam e não admitem, sem exageros e cautelas, não! A danada da velhinha destilava seus venenos sem o menor pudor, além de sempre caçar uma novidade com a mesma curiosidade dos gatos.

Se houvesse um fato – um assunto qualquer –, ela sempre sabia algum detalhe a mais. Aquele que ninguém percebera, nem que não existisse, mas ela tinha que ter uma informação extra, geralmente carregada de uma maldadezinha que só ela sabia acrescentar.

Não era raro vê-la se esticando em um muro, atrás de uma porta, ou de butuca na conversa alheia.

Dona Carlota, ou melhor, Dona Fofoca, –seu apelido oficial –, tinha um roteiro programado em seu dia a dia de aposentada que raramente deixava de cumprir. Sendo os mais importantes: Pronto socorro, delegacia, cabeleireiro, igrejas e cemitério. A desculpa destas visitas diárias era a sua “lojinha”, como ela chamava seu carrinho de café, chás e biscoitos, onde faturava um dinheirinho que completava seu orçamento.

Dona Fofoca não tinha preferência em relação à sua religiosidade, pois era sabido por todos sua frequência tanto na católica quanto na evangélica, não por excesso de fé, mas por um outro motivo bem mais mundano, pois sendo as duas muito movimentadas e um ótimo lugar para se inteirar sobre o mundo à sua volta e seus frequentadores, Dona Fofoca não podia deixar de estar presente em eventos tão cheios de assuntos e comentários, isto, para ela, seria o fim. Por isso, aos poucos e discretamente, passou a frequentar os cultos aos sábados e as missas de domingo, em igual proporção.

Lógico que, sendo ela uma “mulher de negócios” e considerada, pelo menos em sua mente, quase uma santa, acima de qualquer suspeita, ela tinha que passar no único bar da cidade, onde comprava alguns produtos para sua “lojinha”.

Ela se deliciava ao passar por lá, já que, por ali, ela podia soltar o verbo e liberar as informações adquiridas durante suas caminhadas com Seu Joca, o dono do bar.

Lá, ela não poupava ninguém e se esbaldava à vontade, em um tom beato e cheio de “pureza” cristã, toda sua maldade natural e profissional. Habilidade adquirida por anos e anos a fio.

Confesso que temi as vezes que cruzei com ela ao acaso, logo depois do episódio em que fugi da presença do Odioso, bem no momento da chegada do circo. Ela, com seu jeitinho “encantador”, mas sem disfarçar curiosidade excessiva em minhas reações, quis sugerir uma certa mágoa do Pedro Caveira, alegando que ele estava chateado comigo, já que eu havia desaparecido sem me despedir adequadamente dele. Algo que, provavelmente, era uma mentira descarada, mas que ela carregava como verdade absoluta. Criou aquela desfeita minha em cima do “coitado” do Caveira, muito provavelmente para ver qual seria a minha reação e o que ela poderia levar ao conhecimento do Odioso Raivoso, mas que com minha discrição de paulista, exalando calma, sem muitas palavras e um sorriso desinteressado, não conseguiu algo verdadeiramente interessante que me comprometesse o suficiente e merecesse destaque.

De qualquer forma, tinha que agradecer ao circo mais uma vez. Como acabara de chegar na cidade, ele era a grande novidade do momento e ocupava demais a Dona Fofoca, pois diante da difícil missão em recolher informações concretas sobre tanta gente diferente, acabara por me esquecer, ou me deixar em segundo plano.

Como eu fiquei esquecido naquela cidade, notei que poderia ficar um pouco mais sossegado e, por isso, como gratidão as duas vezes que me salvara, tinha que assistir pelo menos um dia de show do Circo “Salvador”, como eu o apelidara, já que nem nome havia em sua fachada.

Tinha tudo no jeito para partir, mas como estava tentado pagar esta “dívida”, mesmo porque, mataria dois coelhos com uma única paulada, veria o circo que tanto adoro e ajudaria na bilheteria, iria, assim, pagar minha dívida imaginária.

E foi exatamente o que iria fazer, sendo que, partiria rumo ao meu destino na sequencia.

Livre daquela cidade, da Dona Fofoca, do Pedro Caveira e, acima de tudo, em paz comigo mesmo e bem longe de qualquer encrenca, como eu gostava de me ver.

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