– Saber dele é saber de encrenca!

Disse Dona Carlota. Carlota Fofoca, era seu apelido, que resolvera me avisar do perigo, com as mãozinhas enrugadas  sobre a boca, escondendo desta maneira, a perigosa fornalha desdentada. Depois, saiu rapidinho de perto de mim, com seus passinhos defeituosos pela idade já avançada.

Ele era tudo aquilo que ela dizia e um pouco pior, mas naquele dia, creio que estava um pouco desanimado, pois penso que diferente disto, com certeza eu teria “subido”, “zerado”, como diziam por ali, pelo simples fato de tê-lo encarado e o tratado como um igual.

Homem bruto, de pele queimada e sorriso estragado, do tipo que antes de beber retirava o chapéu e derramava um gole pro santo. As mãos eram grossas, de unhas amareladas do cigarrinho que ele mesmo enrolava. Cigarro honesto, daqueles que só os matutos sabem fazer.

Não gostava de intimidade e nem de que lhe dirigissem a palavra sem sua permissão! Cabra arretado dos infernos, esta era a descrição do peão, pra qualquer um que não o conhecesse.

É certo que, ele não transmitia nenhuma boa impressão e nem sei porque exatamente puxei assunto. Creio que seja esta coisa de turista desavisado, apenas de passagem, que acredita que todo mundo o considera e o acha uma boa pessoa.

Engraçado que, logo eu, uma pessoa sempre cautelosa e distante, resolvi naquele dia puxar assunto com a pior referência da região: Pedro Caveira, o Odioso Raivoso.

Pelas suas palavras, apenas interrompidas entre um gole e outro de sua cachaça predileta, deixara claro que acabara de “derrubar” mais um.

– Sujeito safado, que abusou da sorte! Disse-me cheio de si, diante de um provável serviço bem feito, conforme ele tentava me transmitir em sua exagerada pose de valente.

Paulista de escritório, branco esverdeado, vida mansa e sem complicações, tive até dificuldade de compreender o que ele acabara de me contar, mas como lhe sorri amigavelmente, acabei por  conquistar alguma confiança.

Depois das primeiras palavras, em uma conversa monossilábica, pensei bem no assunto e até hoje me arrepia em lembrar em como me enfiei naquela encrenca. Basta saber que, não sou de frequentar bares e muvucas, quanto mais arranjar confusão. De certo, que não era este meu intuito ao adentrar naquela bodega, apenas que a havia confundido com a “padaria” local, que de diferente, mesmo, só a mercadoria.

Demorei alguns segundos para entender que a merda já estava feita e que meu novo “amigo” era um matador cruel e sem critérios. Dedo leve e escorregadio, este era outro daqueles muitos apelidos que o definiam como alguém a quem ninguém quer muita intimidade… e eu ali, todo otário. No lugar errado e na hora errada. Me perguntava como o destino havia armado aquela para mim. O que eu tinha certeza de verdade era que estas viagens surpresas e mal planejadas tinham destas, mesmo. Enfim, já que estava, melhor era administrar a desgraça.

Pelo clima de medo que a espelunca transmitia, não precisava ser do pedaço pra entender que o sujeito era um Cabra Arretado dos Infernos, por natureza, por isso, evitei movimentos bruscos e palavras que o contradissessem, assim, logo depois de compreendê-lo como a maior encrenca da minha vida, do jeito que ele me encontrou, permaneci.

No meio daquele enrosco, lembrei, em certo momento, da Dona Carlota. Velhinha fofoqueira, com aquela conversinha de querer me avisar do perigo. Ela devia se satisfazer em ver babacas como eu em uma fria como aquela. Com seu aviso premeditado, ela agia do jeito que o Pedro Caveira gostava, afinal, ela era como as cornetas para anunciar um rei, em suas entradas triunfais, pena que a Dona Fofoca só fez seu papelzinho lazarento um pouco tarde demais para mim, mas na hora exata para o Odioso Raivoso. Lembro de tê-la procurado com os olhos e a visto em um canto qualquer daquele bar imundo, toda satisfeita, cochichando como sempre: – Velha desgraçada!

Ele me puxou uma cadeira e serviu um trago de sua bebida, que aceitei como se fosse suco de laranja. Porém, bebi devagar como se estivesse no deserto e economizasse a bebida sagrada, sempre evitando a cara de quem bebe o caldo do inferno.

Agora, ao lembrar daquela situação é engraçado e estranho como entrei nessa e da mesma maneira me desvencilhei. Se disser que, do nada, uma alegre caravana de circo surgiu, que com sua trupe de palhaços, homens gigantes, mulheres gordas e anões de bigodes enormes, todos conduzidos e apresentados por um rapaz magro de cartola, soa até como mentira. O jovem e maquiado apresentador anunciava a plenos pulmões, em seu alto falante cheio de chiados e ruídos, que  enchiam aquela tarde quente, mas de brisa refrescante, com muita música, risos e canções. Desta maneira, eles me deram a oportunidade desejada para que eu pudesse desaparecer daquele encontro temeroso.

Por isso que eu digo, se for comprar pão… vá na padaria. Nem sempre o circo passa.

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